Paul McMaracanã deixa Antônio Carlos Miguel cansado

Pelo que mostrou ao Maracanã lotado na perfeita noite de sábado a aposentadoria dos palcos ainda pode estar longe. Deixa estar. Por duas horas e meia cravadas, entre a abertura, às 21:03 com “Can’t buy me love”, e os últimos acordes de “The end”, às 23:33, Paul McCartney passeou por diferentes períodos da obra acumulada em quase sete décadas

Para ser preciso, 65 anos, já que o repertório de ontem incluiu sua primeira composição gravada, “In spite of all the danger”. Ingênua balada que era o lado B do cover de “That’ll be the day” (Buddy Holly), compacto de edição única que os então The Quarrymen fizeram em maio de 1958. O disco de alumínio e acetato de dez polegadas rodou de mão em mão, de casa em casa, até acabar esquecido em alguma gaveta do pianista John Lowe. Em 1981, reapareceu anunciado em um leilão, e acabou sendo negociado diretamente com Paul. Finalmente, em 1995, chegou ao público na série Anthology. Esquecível não fosse história.

“Apesar de todo o perigo” (em tradução automática) prova que valeu a pena arriscar. Paul melhorou muito como compositor e exemplos disso sobram em Got Back. Com os Beatles (“Getting better”, “Lady Madonna”, “Blackbird”, “Helter Skelter”, “Got to get you into my life”, “Let it be”, “Being for the benefit of Mr. Kite”, “Hey Jude”, “Get back”, “I’ve got a feeling”, “Golden slumbers”/”Carry the weight”/”The end”…), os Wings (com muitos “let”, “Letting go”, “Let me roll it”, “Let em in”, “Live and let die”, e ainda “Jet”, “Band on the run”, “1985”) e, talvez não tanto assim, solo (“My Valentine”, “Dance tonight”, “New”).
A banda habitual das últimas turnês – Paul “Wix” Wickens (teclados), Brian Ray (baixo e guitarra), Rusty Anderson (guitarra) e Abe Laboriel Jr (bateria) – ganha o reforço de um trio de metais com Paul Burton (trombone); Kenji Fenton (sax) e Mike Davis (trompete), enquanto Paul alterna seu tradicional baixo Hofner com guitarra, piano, violão, bandolim e ukulele. E se esgoela muito.
Para ser melhor, só se tivesse uma homenagem a Carlos Lyra, “Maria Ninguém”, por exemplo.
PS: trecho de “Getting better”“Getting better”, Paul McCartney, Maracanã, Rio, 16 dezembro 2023




