Reeditado depois de cinco décadas, Tatuagem, de Joel Macedo, é um documento da contracultura no Brasil
Para ser lido ao som de Bob Dylan em Like a Rolling Stone

Era primavera com temperatura de 23 graus. Isso dá saudade.”
Caia na estrada dos anos 70 e perigas ver o que foram aqueles indizíveis anos 70, década do desbunde e do barato, dos hippies e dos drop-outs, da maconha e do LSD, de novos e velhos baianos. O passaporte para a viagem está em Tatuagem – Histórias de uma Geração na Estrada, livro de Joel Macedo (aka Joel Fontenelle Macedo, aka Joel McBird), carioca e taurino de 76 anos, hoje retirado em Paracambi e reparem na poesia do endereço (!!!!!!!!??????): Rua Tranquilidade, Costa Verde.
Tatuagem reúne 12 contos – meio ficção, meio realidade – mas tudo verdadeiro. Escrito na juventude estradeira do autor, entre os 21 e os 24 anos, o livro se inspira declaradamente em Bob Dylan, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Neal Cassady – a alma beat da poesia norte-americana – mas também há espaço para referências anteriores (Vincent Van Gogh, Arthur Rimbaud, Lou Andreas Salomé), posteriores (Bob Marley) e contemporâneas (Luiz Carlos Maciel, Ezequiel Neves e Tite de Lemos). Jornalista, resenhista, tradutor e escritor brasileiro, Joel foi um dos pioneiros do jornalismo de contracultura no Brasil, integrando a equipe que trabalhou para a versão brasileira do jornal Rolling Stone em 1972. Depois dessa experiência efêmera, Joel circulou pela imprensa burguesa, colaborando em Última Hora, O Dia, O Fluminense, Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e O Globo. Hoje se dedica à tradução.
Mas antes disso, Joel desbundou. No Brasil asfixiado pela ditadura, Joel cobria os movimentos políticos e estudantis. Protegido por Samuel Wainer – que sacou que a barra estava pesando – Joel foi enviado para os Estados Unidos para ser correspondente da Última Hora. Chegou lá, na pátria dos andarilhos, em 1968, com o país tomado por protestos, ao som do jazz, da soul music e do rock. Da América, Joel seguiu para rumos ainda mais longínquos. Aí suas experiências de viagens passaram a incluir países como Canadá, Holanda, Nepal, Turquia e Afeganistão. Muitas delas registradas em dois símbolos da imprensa contracultural, os jornais Presença e Flor do Mal. Joel, fiel ao mandamento de não ter apego por nada material, deixou pelo caminho as páginas dessas reportagens. Quem quiser recuperá-las e entendê-las, deve ler Tatuagem.
Além desta obra de estreia, Joel escreveu outros três livros: Despertador: Espiritualidade dos anos 70 (1979), Albatroz: O Encontro das Tribos na Califórnia (2008) e 1961: Uma Novela na Era Kennedy (2020), este último adquirido diretamente junto ao autor e que já espera minha leitura para os próximos dias. “Tudo que escrevo em livro tem base jornalística, é o alicerce da minha ficção. Cada coisa que se lê nos meus livros publicados é rigorosamente apurada, real. Todos os dados, gírias, lugares, são fruto de apuração. Em cima desse rigor da informação que escrevo minhas obras”, confessou Joel em uma entrevista e me reafirmou este compromisso em algumas mensagens que trocamos pelo Facebook.
Mas agora quero me deixar viajar pelas linhas de Tatuagem. Ali está a essência da literatura beatnik em versão brasileira. O lado confessional e a escrita corajosa, áspera, sem arestas, às vezes otimista, outras vezes desiludida. A viagem de alguém que passou por todas nos anos 70 – e voltou para contar.
