Dentro das filigranas sonoras de Ed Motta

Antônio Carlos Miguel relutou escrever sobre, mas, revela que acabou intoxicado por Behind the Tea Chronicles

Leia ao som de “Tolerance on High Street”

Ed Motta/ Divulgação

Camadas de instrumentos conjugadas com sensibilidade e obsessivo detalhismo estão entre as marcas de Behind the Tea Chronicles, fruto da última imersão de Ed Motta nos estúdios. Nada de novo, poderão dizer aqueles que conhecem um pouco da obra do tijucano mais estadunidense da música brasileira. Sim, Ed sendo Ed, para o prazer dos que se dedicaram a algumas audições de um disco diversificado, repleto de surpresas e deleites. 

Morro Dois Irmãos avistado de Ipanema em 7 de novembro de 2023 / Foto: ACM

Ouça sem preconceitos, como, décadas atrás, pediu no título de seu segundo disco solo o finado ex-Wham!, e, aos poucos, o aficionado será tomado por trechos da diversificada paleta de estilos dessas 11 canções. Soul, samba-jazz, valsa torta, Delta blues, balada jazzy & blues, ecos de Steely Dan, em blend musical com a inconfundível marca de um estilista.  Frases melódicas que grudam, assim como riffs de sopros, solos de guitarra cirúrgicos e preciosos, idem solos de diferentes teclados, precisas intervenções de cordas e vocais de apoio, enquanto trechos das letras no idioma de Lorenz Hart começam a surgir de dentro de cada um. O grito “The singeeeer! The Singeeeer! The Singeeeer!”, por exemplo, no fecho da climática “Tolerance on High Street”, ficou alguns dias na cabeça. Poderia ser autorreferente, mas, palavra neutra em inglês, versa sobre uma cantora, lutando para se impor em meio contaminado por esquemas escusos – é o que descubro ao finalmente conferir as letras, disponíveis no aplicativo de streaming usado e também no encarte da edição japonesa do CD. Os versos finais, em tradução aproximada (e jogando fora o possível duplo sentido de algumas palavras, as rimas e a métrica), completam a historinha de clima noir da letra dessa balada jazzy & blues: “A chave para o sucesso / é sempre estar com  a pessoa certa / no lugar certo / a frase certa / a citação certa / as roupas certas / o casaco certo  / a faixa correta / as pistas corretas…”. Mas, de alguma forma, versos que também se aplicam à arte de Ed Motta, detalhista não só na música (composição, arranjos, execução, gravação, mixagem) mas também em design de capa e encarte, figurino, chás que consome…

Talvez a maior surpresa em Behind the Tea Chronicles  (Links para streaming do álbum completo) seja a unanimidade com que foi bem recebido pela mídia… brasileira. No “resto” do mundo, a aceitação já se verifica há alguns anos, mesmo que restrita aos nichos em que a música de Ed Motta circula. Nichos importam cada vez mais, e a imprensa especializada em… do jazz ao pop de veia afro-black recebeu o novo disco com igual entusiasmo.

Bom para todos os envolvidos. Com exceção daqueles que ainda pretendem escrever algo sobre. Sem obrigação,  e se fosse fiel à auto decisão de não comentar lançamentos em AmaJazz, poderia me incluir fora disso. Há também o fato de que que, em quase três décadas, a convivência próxima demais com o próprio deveria me impedir eticamente. O problema é que o 14º disco de estúdio de Ed é bom demais para não jogar alguma conversa dentro.

CD japonês Behind the Tea Chronicles em meio a referências nipônicas / Foto: ACM

Para tentar destrinchar a montagem, do estúdio Rocinante (no Rio) vieram as bases, feitas por um quinteto formado por Ed (diversos instrumentos, muitos deles adicionados posteriormente no caseiro Dwitza Studio), Michel Limma (piano e teclados e direção musical), Sergio Mello (bateria), João Oliveira (guitarra) e Alberto Continentino (baixo). Além do já citado Dwitza, onde Ed gravou seus detalhes, em três outros estúdios foram registradas as camadas de sopros (Plymouth Rock Recording Company, em Detroit, EUA), vocais de apoio (Nolan Shaheed, Pasadena, EUA) e cordas (Smecky Music, Praga, Rep. Tcheca).

Pontuais participações ainda se alternam através do disco, entre outras,  a harpa de Cristina Braga em “Slumberland”; a bateria de Tutty Moreno, apenas em “Tolerance on High Street”; o dobro slide de Otávio “Blues Etílico” Rocha na vinheta que remete ao Delta Country Blues de “Buddy longway”; os solos de slide guitar do mesmo Otávio e de flauta de Marcelo Martins no shuffle blues à la Steely Dan “A shot in the park”.

Lendo os créditos cheios de nomes – até equipamentos, amplificadores, compressores, microfones, etc. são listados -, uma pergunta surge no quesito naipe de sopros: por quê seis das sete faixas usam músicos de Detroit (com arranjos do trompetista Kris Johnson e de Ed) e uma, os brasileiros Aldivas Ayres, Rafael Rocha, Jessé Sadoc e Leandro Dantas? Quem ouvir esta, “Deluxe refugee”, terá a resposta, o balanço que remete ao samba-jazz-funk de uma Banda Black Rio, segundo o filtro dos arranjadores Sadoc e Ed.

Em meio à exuberância da instrumentação, há momentos mais básicos e igualmente impactantes, como a valsa circense “Of good strain”, Ed e Michel Limma (piano acústico, Rhodes e Hammond); e, principalmente, o encerramento solene e impressionista de “Confrere’s Exile”, apenas a voz, o piano acústico e o baixo Multivox de Ed.  

Poderia continuar desfiando exemplos, mas, divido com leitores de AmaJazz o pequeno texto de Ruy Castro que abre o press release cheio de adjetivos e elogios distribuído à mídia brasileira pelo selo Virgin.

Behind the Tea Chronicles é a trilha sonora de um quadro de Edward Hopper, povoado por personagens de Nathanael West, com diálogos de Dashiell Hammett, dirigido por Michael Curtiz, e composta por… Hoagy Carmichael? Não. Por Ed Motta” (Ruy Castro)

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

Nenhum pensamento

  1. “POPão”, comercial, muita informação no tocante a harmonia. Lembra o pop americano dos anos 80. Miscelânea de sonoridades, bluesy, pop, country … Ed Motta foi na contramão da guinada dada anos atrás com o Dwitza.

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