Conexões kafkianas entre enredos do Brasil e do Irã

Antônio Carlos Miguel vê paralelos em dois filmes que assistiu por acaso na mesma noite do Festival do Rio

Eles vêm de países muito diferentes em tudo, mas, de alguma forma On Off e Crônicas do Irã têm pontos de contato. Tanto o novo do realizador pernambucano Lírio Ferreira quanto o filme dos iranianos Alireza Khatami e Ali Asgari são conduzidos por kafkianos interrogatórios.

Cadu Fávero e Caio Blat são os protagonistas do soturno On Off, novo filme do diretor pernambucano Lírio Ferreira

Em uma decadente delegacia em algum lugarejo perdido no interior, perto de sua casa de campo, o escritor Onoff, vivido magistralmente por Caio Blat, é detido como suspeito de um crime. Na abertura, sob chuva torrencial, ele é conduzido ao interior do prédio. No decorrer da noite, “Machado de Assis”, como se apresenta o delegado (em outra atuação brilhante, de Cadu Fávero), não só reconhece o preso como se revela um aficionado leitor, daqueles que sabe de cor trechos de muitos livros. Se num primeiro momento, após a descoberta da identidade do investigado, o tom parece mais ameno, logo a tortura psicológica e física volta e se intensifica. Tudo isso é filmado num plano sequência, em preto e branco, ou mais preto que branco. Cortes de luz, em meio à tempestade que cai na região, aumentam a penumbra. É narrativa que incomoda, reforçada pela trilha igualmente soturna de Clóvis Pereira Filho (que também atua, e toca, como o violonista que aparece na abertura e no fim) e Fernando Aranha. Outro dos coadjuvantes, Toni Platão é o carcereiro, que entra e sai praticamente mudo – sua voz potente só é ouvida nos créditos, na versão pesada da canção-tema.

Onoff Blat) é conduzido à delegacia pelo policial vivido por Toni Platão

Lírio Ferreira estreou em longa-metragem com Baile perfumado (de 1996, em parceria com Paulo Caldas) e, depois, fez Árido movie (2005) e os documentários Cartola – Música para os olhos (2006, codireção de Hilton Lacerda) e O homem que engarrafava nuvens (2008). Atualmente, ele termina um documentário sobre o disco Ao vivo, de seu conterrâneo Alceu Valença. Na preleção antes da projeção para convidados, Ferreira disse que On Off foi concebido durante a pandemia e é um filme tipicamente pós Covid-19. O título do livro no qual Onoff trabalhava no momento em que é detido parece remeter a nossos dias, O vírus e o verme. No entanto, as pistas oferecidas pelo interrogatório situam a trama nos anos 1990 – nascido em 1946, o escritor vivido por Blat teria 47 anos.

Um dos personagens de Crônicas do Irã

Crônicas do Irã tem estrutura igualmente anticomercial, típica de muito da cinematografia do país. Com a câmera estática, sem contraplanos, em nenhum momento vemos os interlocutores, ou melhor, os inquisidores. Com pitadas de comédia do absurdo, um desgoverno teocrático é desnudado em sete histórias sobre cidadãos comuns esmagados pela intolerância religiosa-política. 

A motorista acusada de dirigir sem hijab em Crônicas do Irã

Na abertura, antes das crônicas, a câmera parada flagra o amanhecer em Teerã. Na primeira história, um pai tenta batizar como David o filho que acabou de nascer. Escondido no outro lado do balcão, o burocrata questiona a opção por um nome ocidental, não aceitando a justificativa de aquele ser o autor preferido do requerente (em mais um paralelo possível com On Off). Na seguinte, uma adolescente que em nada difere de sua geração no Ocidente – jeans, camiseta com Mickey Mouse, tiktok-dançando ao som do pop que ouve em seus fones de ouvido -, passa pela tortura numa loja de roupas. Mãe e vendedora tentam enquadrar a menina aos padrões das vestimentas corretas segundo o islamismo desvirtuado. Entrevistas de emprego mantêm o padrão inquisitório em duas outras histórias, uma moça assediada pelo sujeito oculto e um senhor que, ao invés de aptidão para as tarefas, tem que mostrar conhecimento do Corão. Há ainda o homem tentando tirar sua carteira de motorista, questionado sobre sua sanidade mental e obrigado as exibir as muitas tatuagens que ostenta; a moça acusada de dirigir sem hijab (o véu que deve cobrir qualquer vestígio de cabelo); ou a senhora atrás de sua cadela também esbarrando na ignorância de uma delegacia. Na sétima e última crônica, sem diálogo algum, está apenas um nonagenário, que começa a cochilar na sala de um prédio moderno envidraçado. A câmera finalmente se move, mostrando ao fundo os prédios de Teerã. E mais não conto, para evitar o spoiler.

Nesses acasos que fazem a vida mais interessante, assisti a Crônicas do Irã por… acaso. Como forma de me antecipar à chuva torrencial que se anunciava sobre o Rio de outubro, resolvi chegar bem antes à Gávea e pegar o filme que estaria disponível numa das cinco salas e não batesse com o horário de On Off.  

O jornalista Don Phillips

Por fim, o filme de Lírio Ferreira teve como aperitivo, de sabor amargo pelo tema, o curta Onde a floresta acaba. É um poético ensaio sobre o jornalista inglês Don Phillips, assassinado na Amazônia em junho de 2022 junto com o indigenista Bruno Pereira. Amigo de Phillips, o diretor Otávio Cury recupera registros em vídeo de sua convivência com o jornalista e também é o narrador de uma carta de despedida.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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