Os sons combinados dentro do Festival do Rio 2023

Antônio Carlos Miguel aumenta a expectativa pelo filme de animação sobre a música e o assassinato do pianista Tenório Jr., escalado para abrir a 25º edição do evento

Para ser lido ao som de: Tenório Jr., Tema, do álbum EMBALO

Cena de Atiraram no pianista, animação de Fernando Trueba e Javier Mariscal que abre o Festival do Rio / Divulgação: Javier Mariscal

Dentre as muitas vertentes de cinema presentes no Festival do Rio, a de documentários musicais é um dos destaques. Tanto que, mesmo abrindo um pouco o conceito, o filme de abertura e o de encerramento da edição 25º do evento têm a arte de sons e pausas combinados como tema. Na sessão inaugural, dia 5 de outubro, o escalado foi Atiraram no pianista, um filme sonhado e anunciado há quase duas décadas pelo diretor espanhol Fernando Trueba, a partir da trágica história do pianista carioca Tenório Jr, morto aos 35 anos, em 1976, em Buenos Aires, por órgãos de repressão da ditadura militar argentina.

Tenório Jr. / Arquivo

É um longa-metragem de animação, codirigido por Javier Mariscal, especialista na técnica, e que trabalhou na criação ao lado do premiado quadrinista brasileiro Marcello Quintanilha.

A sessão final, dia 15 de outubro, caberá a outro filme estrangeiro em parte movido a tema musical, Priscilla. O novo longa de Sofia Coppola é baseado em Elvis e eu (1985), autobiografia de Priscilla Presley, a adolescente filha de militares que conheceu o cantor em 1959, na Alemanha, durante os dois anos em que ele serviu nas Forças Armadas dos EUA. Lisa tinha 14 anos; Presley, aos 24, já deixara a melhor parte de sua carreira musical para trás.

Entre esses dois títulos, há muita mais música no cardápio do Fest Rio (Site oficial do Festival do Rio 2023) e, aqui em AmaJazz, vamos comentar o que der para assistir. Tem a biopic Meu nome é Gal (direção de Dandara Ferreira e Lô Politi, com Sophie Charlotte no papel de Gal Costa em recorte de sua primeira década de carreira); Meu sangue ferve por você (direção de Paulo Machline, este sobre Sidney Magal, na pele de Filipe Bragança); Nas ondas de Dorival Caymmi (de Locca Faria, em mais um documentário sobre o “inventor” da Bahia na MPB); Nada Será Como Antes (direção de Ana Rieper, sobre o Clube da Esquina), Black Rio, black power (de Emílio Domingues), Macaléia (de Rejane Zilles, sobre seu marido, Jards Macalé, e Hélio Oiticica) e Mussum, o Filmis (de Sílvio Guindane, sobre o comediante que começou na música, no grupo Os Originais do Samba).

Aparentemente, com potencial para superar o filão musical do ano passado, no qual, entre as produções brasileiras estavam o incensado Elis e Tom (direção de Roberto de Oliveira), atualmente em cartaz no circuito de cinemas; e dois outros documentários fundamentais, Miúcha: A voz da bossa nova (de Daniel Zarvos e Liliane Reis) e Andança: os encontros e as memórias de Beth Carvalho (dirigido por Pedro Bronz a partir do rico acervo de filmes caseiros que a cantora acumulou ao longa das três ultimas décadas de carreira).

Capa do CD editado em 2004 pela Dubas Música / Reprodução

Projeto há tempos sonhado por Trueba e muito aguardado tanto por amantes da música brasileira quanto por quem se interessa pela amarga história política da América do Sul.  Pianista (e compositor e arranjador) que , nos anos 1960, despontara como um dos mestres da bossa nova instrumental, o samba-jazz, naquela primeira metade da década de 1970, ele também marcava presença em discos e shows de artistas como Gal, Nana Caymmi, Lô Borges, Edu Lobo, Joyce, Milton… Em março de 1976, participando de turnê com Vinicius de Moraes e Toquinho, Tenório saiu do hotel em Buenos Aires para comprar um sanduíche e foi detido pela polícia política argentina. Barba cerrada e óculos eram suspeitos na época. Confundido com um ativista de esquerda, passou dias sendo torturado, até seus algozes perceberem o erro. O estado do músico era tão devastador que, ao invés de inventarem desculpas, preferiram matá-lo e sumir com o corpo.

Capa do LP original na RGE / Reprodução

Com um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no currículo (por Belle Époque, em 1993), Fernando Trueba é também um apaixonado por música, especialmente o jazz e a brasileira. Em parceria com o crítico e produtor Nat Chediak (este, um cubano radicado em Miami, e primo dos saudosos Almir e Jesus Chediak), manteve o selo Calle 54, que, lançou importantes títulos do jazz-latino e do flamenco. O cineasta despertou para a musicalidade de Tenório ao se deparar com aquele nome na ficha técnica de muitos de seus discos brasileiros preferidos dos anos 1960 e 70. Na década de 1990, ao comprar uma edição japonesa do único álbum solo do pianista,  Embalo (1964), e reafirmar a genialidade do músico, foi atrás de mais e assim ficou sabendo da morte em circunstância tão dramática. 

Inicialmente pensando em um documentário, a partir do fim dos 1990, Trueba começou a gravar entrevistas no Rio e em Buenos Aires com gente que conheceu Tenório, incluindo Paulo Moura (1932-2010), Ferreira Gullar (1930-2016), João Donato (1934-2023), Chico, Milton, Joyce, Gil, Caetano, Toquinho e Gilda Mattoso (a última mulher de Vinicius). Exibido semana passada no Festival de San Sebastián (na Espanha), o filme alterna documentário e ficção: um jornalista dos EUA (na voz do ator Jeff Goldblum) conduz as entrevistas feitas nesse tempo todo por Trueba.

João Donato e Fernando Trueba, em outubro de 2005, no Festival do Rio
Foto: Antônio Carlos Miguel

Entre os filmes que lançou no período em que investigava a tragédia de Tenório estão O milagre do Candeal (de 2004, e que promoveu um encontro em Salvador de Carlinhos Brown com o veterano pianista cubano Bebo Valdés) e Chico & Rita (de 2010, ficção de animação sobre um pianista de jazz e uma cantora dos anos 1940).  Neste segundo, Trueba trabalhou em parceria com o mesmo Javier Mariscal, que, agora, também foi o responsável pela parte técnica de animação de Atiraram no pianista.

Arto Lindsay, Fernando Trueba, Marisa Monte, Niño Josele e Dadi Carvalho, no Instituto Cervantes carioca, em junho de 2010 / Foto: Antônio Carlos Miguel

Apresentado a Trueba por Nat Chediak (a quem conheci em 2000, em uma das primeiras reuniões do Grammy Latino, em Los Angeles), acompanho com interesse e fissura a longa gestação de um filme que deverá fazer justiça à grande arte de Tenório Jr.  Então, para ler ao som de Embalo. E, para ilustrar, ao lado de uma cena e das capas do disco  (a versão em CD editada pela Dubas Música em 2004 e a do LP original da RGE), subo duas fotos que fiz do diretor no Rio. Com o saudoso João Donato, em outubro de 2005, quando Trueba exibiu no Festival do Rio O milagre do Candeal, e em 2010. Nesta, ele está entre o guitarrista Arto Lindsay e Marisa Monte, mais  o violonista flamenco Niño Josele (um dos artistas que gravou no selo Calle 54, então em uma turnê que passou pelas sedes do Instituto Cervantes no Brasil) e o multi-instrumentista Dadi Carvalho.  

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

2 pensamentos

  1. Muito bom, parabéns. Louco pra assistir. Vou comentar na Radio Deleite agora ao vivo, ok? Abraços!

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