O Faraó do Free

Roberto Muggiati fala do sax-appeal dos tenores de alcova à inquietação existencial dos tenores da tempestade

Para ser lido ao som de Pharoah Sanders e London Simphony Orchestra em Promises

Arte: Daniel Kondo

Saudado por Ornette Coleman como “talvez o melhor sax-tenor do mundo”, Pharoah Sanders juntou-se neste sábado aos seus pares do free-jazz como John Coltrane, Albert Ayler e o próprio Coleman, ao morrer de causas naturais em Los Angeles aos 81 anos. Foi parte daqueles saxofonistas que faziam intermináveis solos ruidosos e raivosos na segunda metade dos anos 1960. Nascido em 1940, passou ao largo da estética elegante do hard-bop dos anos 1950 e tinha todos os motivos para sentir raiva do mundo em seu início de carreira. A invasão do Brit Pop tirou o emprego de muito jazzista, a Bossa Nova, com sua suavidade, foi uma opção de sobrevivência principalmente para brancos como Stan Getz e Charlie Byrd. Restou a músicos afroamericanos que queriam fazer jazz de raiz a vertente espiritual inspirada pelo A Love Supreme de Coltrane, com quem Sanders se associou até a morte do mestre.

Uma de suas obras mais conhecidas é The Creator has a Master Plan”, uma faixa de 33 minutos do álbum Karma, que lhe valeu a fama de padrinho do cosmic jazz, que ele rejeitava.

Guardava afinidades com Rahsaan Roland Kirk e Sun Ra, que lhe sugeriu mudar seu nome, Farrell Sanders, para o mais exótico Pharoah. Nascido e criado em Little Rock, capital do Arkansas, viveu todo o clima de segregação racial que culminou nos conflitos de 1957, que tornaram sua cidade natal mundialmente famosa. (Charles Mingus compôs uma canção de protesto dedicada ao governador Orval Faubus, Fables of Faubus.) Ao concluir o ensino médio, Sanders se mudou para a Califórnia, onde frequentou pela primeira vez clubes racialmente mistos e teve um primeiro encontro com Coltrane. Tempos depois, ele se viu na miséria em Nova York, trabalhando como cozinheiro e até vendendo seu sangue para sobreviver. Conheceu Sun Ra quando cozinhava num clube em Greenwich Village. Sun Ra e Coltrane o recrutaram para suas bandas. Com a morte de Coltrane, tornou-se líder da mesma. Com o correr das décadas, Pharoah soube preservar a imagem de seu som complexo em meio a um verdadeiro tsunami de gostos musicais cambiantes e muitas vezes duvidosos. Mais recentemente, atingiu até a novíssima geração ao colaborar com Floating Points e a Orquestra Sinfônica de Londres no álbum Promises, mundialmente aclamado como um dos melhores de 2021.

Para fechar, uma avaliação do sax-tenor Albert Ayler, encontrado misteriosamente morto nas águas do East River, em Nova York, em 1970, aos 35 anos:

“Trane era o Pai, Pharoah era o Filho, e eu era o Espírito Santo”.

Nenhum pensamento

  1. Mais um grande do sax-tenor nos deixa, diminuindo a linha de frente dos grandes instrumentistas a serviço do jazz. Muito embora eu ache que ele, em algumas músicas, abusava das dissonâncias, impondo muita agressividade, também reconheço que ele tinha muitos recursos no sopro do sax e era uma figura emblemática, tendo feito trabalhos interessantes como lider de banda e, ao lado de Alice Coltrane, de quem foi colaborador, na linha espiritual.

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