Gênios geniosos

Antônio Carlos Miguel lembra seus encontros – bem estranhos – com Ron Carter e Hermeto Pascoal

Para ser lido ao som de Hermeto Pascoal em Para Ron Carter

Ron Carter em 2005 (Foto: Antônio Carlos Miguel)

Com duas décadas e meia de atraso, percebo que Ron Carter tinha razões de sobra para se entediar com a troca do hotel à beira-mar por uma improvisada redação na Cidade Nova. Esta, apesar do nome, uma área mais para fantasmagórica, deteriorada e inóspita urbanisticamente, próxima ao Centro do Rio. A visita do contrabaixista, em janeiro de 1997, fazia parte do pacote de promoção de uma temporada de shows que contava entre seus apoiadores o diário no qual eu atuava como repórter especializado. Aquela também era a estreia de um artista internacional no claudicante modelo de “chat room” que o jornal apostava, mas, nunca passou de chato e ruim. Em tese, leitores conectados na iniciante internet fariam perguntas para o convidado da vez. Na prática, o número de participantes era mínimo, quase todas as questões vinham de colegas da redação – assim conseguíamos um ralo (e quase fake) conteúdo para transformar o mico internético em reportagem na versão impressa do dia seguinte.

Então aos 59 anos (em maio ele viraria um jovem sexagenário), Ron Carter ainda não se iniciara na informática, muito menos participara de um chat e passou uma hora compreensível e visivelmente entediado. Quando pedi que compartilhasse algumas recordações das sessões da trilogia WaveTide e Stone Flower com Antonio Carlos Jobim, no mítico estúdio do engenheiro de som Rudy Van Gelder, em Nova Jersey, foi direto: “Não me lembro, na época gravava com tanta gente”. Insisti, mostrando os LPs seguintes, que entendo como um díptico e nos quais seu contrabaixo é fabuloso, Matita Perê (1973) e Urubu (1976), e, um pouco mais diplomático: “Foi uma experiência curiosa trabalhar com músicos brasileiros nos estúdios de gravação e entender o que eles esperavam de mim”.

Meses depois, numa viagem a trabalho a Nova York, entrei numa livraria especializada em música perto de Columbus Circle e cruzei com Ron Carter logo após pegar na estante Beneath the Underdog, a estranha autobiografia do gênio genioso Charles Mingus. Percebi que ele conferia o que eu tinha na mão e dei um “livro-aceno”, passando em direção ao caixa sem abordá-lo para valer.

Hermeto Pascoal (Foto: Antônio Carlos Miguel)

Oito anos e meio depois, em setembro de 2005, em nova oportunidade de conversa, o jazzman esbanjava interesse e cordialidade. Dessa vez o genioso foi outro. Ron Carter e Hermeto Pascoal dividiriam a noite num teatro no Centro do Rio, cada um faria seu show e, segundo o divulgado, depois se juntariam para uma jam session. Minha pauta, devidamente assessorada pelos produtores da noite, era acompanhar o reencontro dos gênios na passagem do som e no grand finale do concerto. Pude conversar com Carter por mais de uma hora, que contou sobre as gravações de Urubu, lembrando de conversas com Tom, o maestro alemão Claus Ogerman e o baterista João Palma. No entanto, nada de Hermeto dar as caras. Só apareceu na hora de subir ao palco. Apresentação encerrada, o Bruxo saiu por uma lateral e, sem cruzar com Carter, embarcou numa van que o aguardava. Detalhes geniosos que não interferem na musicalidade desses gênios.

PS: Vinte anos antes do chato chat com Ron Carter, tenho registros em preto e branco de outro gigante do contrabaixo jazzístico: Charles Mingus, maio de 1977, Teatro João Caetano (RJ).

Nenhum pensamento

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