O jazz é meu dom

Daniel Rodrigues vai fundo no arsenal rítmico de Dom Um Romão, percussionista brasileiro que deixou muito americano embasbacado.

Para ser lido ao som de Dom Um Romão em Dom Um Romão (1974)

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Quando o jazz-fusion, no final dos anos 60, escancarou as portas do jazz tradicional, mesclando-o ao gênero mais pop do século 20, o rock, um novo paradigma se abriu. Até então fortemente ligado ao ritmo dançante do swing, ao virtuosismo do bebop e à sofisticação do cool, o jazz passava a ser, na prática, tudo: rock, funk, vanguarda, clássico, ritmos latinos, música indiana, oriental etc. A rica música brasileira saiu ganhando. O Brasil e seus músicos entraram de vez no mapa da música internacional. Os percussionistas, em especial, considerando as características da música latina, tiraram vantagem. Casos de Naná Vasconcelos, Laudir de Oliveira, Airto Moreira e de outro craque das baquetas: Dom Um Romão.

Dono de um estilo único e muito natural que une a versatilidade adquirida nas orquestras da noite carioca à alta técnica jazzística da sincopa e divisões rítmicas, Romão (1925-2005) tem uma história peculiar. Filho de um também baterista, literalmente herdou-lhe o dom, pondo-o em prática, nos anos 50, nos bares boêmios do Beco das Garrafas. Cedo, já havia realizado feitos invejáveis para qualquer músico de sua geração: no Brasil, participara, em 1958, da gravação do marco inicial da bossa nova Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, e, alguns anos mais tarde, do memorável O Som, da Meirelles e os Copa 5, de 1964, na minha opinião, o A Love Supreme brasileiro. Já nos Estados Unidos, integrou a “cozinha” do clássico Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim, em 1967, e substituíra o amigo Airto no Weather Report, a maior referência do jazz-fusion, tocando, de 1972 a 1976, ao lado de Wayne Shorter, Joe Zawinul, Alphonso Johnson e Eric Gravatt. Mas faltava-lhe o trabalho solo no exterior (já tinha um LP homônimo, de 1964, gravado no Brasil), aquele que ratificasse não apenas suas qualidades como instrumentista, mas também como compositor e band leader. A oportunidade veio em 1973, quando o cultuado selo nova-iorquino Muse o chama para realizar um projeto à altura de seu merecimento.

A reverência ao novo contratado fica evidente pelo time convidado para as gravações. O set reuniu uma lista extensa de músicos. Dos “gringos”, figuras referenciais como Stanley Clarke e Frank Tusa, no contrabaixo; Gravatt, na percussão; Lloyd McNeill, flauta; Joe Beck, guitarra elétrica; Jerry Dodgion; sax-alto e flauta; Richard Kimball, sintetizador; Mauricio Smith, sax-soprano e flauta; Jimmy Bossey, sax-tenor; e William Campbell Jr., trompete. O disco conta, ainda, com músicos brasileiros: Sivuca; João Donato; Dom Salvador; Portinho e Amauri Tristão.

Dom Um Romão, o disco, representa em suas seis faixas a contribuição sui generis que o Brasil dava à nova feição do jazz naqueles primeiros anos da dedada de 70. O samba, o baião, o maracatu e os ritmos folclóricos brasileiros e latinos fundiam-se ao hard-bop, ao jazz modal, ao cool jazz, a avant-garde. Tudo começa com Dom’s Tune, um “cartão de visitas” que virou tema cult entre os músicos e admiradores tardios de Romão. Pura destreza e musicalidade, a começar pela rica percussão do próprio autor, que comunga vários instrumentos como caxixi, chocalho, pratos, chipô, tamborim e sinos. Sobre uma base modal do piano de Dom Salvador, Beck improvisa por mais de 8 minutos. Isso sem falar dos sintetizadores de Richard Kimball, das incursões percussivas de Portinho e da frase repetida dos sopros que, a partir da segunda metade, passam a dar um riff para a música.

Segue Cinnamon Flower, uma versão bastante original de Cravo e Canela, de Milton Nascimento, evidenciando a inventividade harmônica e melódica do compositor mineiro naturalmente muito a ver com o jazz contemporâneo. Em ritmo de baião, tem Romão percutindo a trinca típica do gênero (bumbo-caixa-triângulo), além do riff executado nas flautas, os quais evocam os versos: “A lua morena/ A dança do vento/ O ventre da noite/ E o sol da manhã/ A chuva cigana/ A dança dos rios/ O mel do Cacau/ E o sol da manhã”. A guitarra com pedal wah-wah faz não só a levada como também o solo principal, dando ainda mais modernidade a um tema de raízes folk.

Romão relembra os tempos de bossa nova num tema altamente elegante: Family Talk. Composição sua mas que bem poderia ser de Tom Jobim nalgum de seus discos da A&M, Tide ou Wave (este último, em que o baterista participa), haja vista a parecença da sonoridade e o conceito musical sofisticado: dominante em Sol, batida de violão ao estilo João Gilberto, baixo acústico trasteando como o de Ron Carter, a levada manemolente da bateria no aro da caixa e, principalmente, o arranjo, que privilegia a flauta como executora do riff. Não bastasse, o mestre Donato aparece para fazer um solo bem a seu estilo: econômico e inteligente.

Assim como a segunda faixa, Ponteio é mais uma releitura de clássico da MPB, esta agora, que em muito lembra Shorter e a Weather Report, talvez a versão mais inspirada que a composição de Edu Lobo e Capinam pudesse ganhar. Romão comanda um constante triângulo, enquanto Dom Salvador, o electric piano. É o pianista também quem desvela um rico solo no teclado acústico, que tem por trás as inventivas viradas e variações rítmicas de Romão na bateria, enquanto o baixo de Clarke e as congas de Gravatt mantêm uma atmosfera caribenha. Outro solo, agora de flauta, na segunda parte, incute ainda mais a complexidade jazzística ao tema, que não perde, entretanto, o teor grave da melodia original, a qual remete inevitavelmente às rodas e duelos de viola nordestinos.

Braun-Blek-Blu, que informalmente dá nome ao disco, tem Romão sozinho no estúdio, somente ele e seu aparato. E parece uma bateria de escola de samba inteira. Ao mesmo tempo em que é um samba marchado e acelerado, exigindo alta técnica e controle dos tempos, lembra, sem erro, também o maracatu rural do Nordeste brasileiro com seus tambores, chocalhos e gonguê. Hábil, o percussionista consegue variar o compasso, acelerando e desacelerando o ritmo. Isso, enquanto executa viradas e ataques junto com os próprios vocalises.

Para encerrar, o sertão dos trópicos retorna com a interpretação de mais um hino do cancioneiro brasileiro: Adeus, Maria Fulô. Romão e banda dão uma pegada de latin jazz explosivo ao singelo baião. E com consentimento do próprio autor, Sivuca, que comanda o órgão e o piano, enquanto o saxofone soprano de Mauricio Smith anuncia, apenas em sons, o riff (“Adeus, vou-me embora, meu bem/ Chorar não ajuda ninguém/ Enxugue o seu pranto de dor/ Que a seca mal começou”). O mesmo Smith é quem faz um novo solo, desta vez improvisando com total liberdade no sax tenor. Romão preenche o espaço com uma rara multiplicidade de texturas e cores, ajudado pela percussão de Gravatt e Portinho. Dom Um Romão marca uma fase áurea do jazz moderno brasileiro no exterior, servindo de referência até os dias de hoje para músicos das mais diferentes vertentes.

PS: Reeditado em 1975 com arte diferente e incluindo o outro disco de Romão pela Muse, Spirit of the Times, de 1975, a 32 Jazz lançou, em 1999, a versão em CD, intitulada The Complete Muse Recordings.

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