Pedra rara

Juarez Fonseca escreve sobre Mário Negrão, baterista-compositor que lança pela Kuarup terceiro disco solo cercado por grandes nomes da música instrumental

Para ser lido ao som de Mário Negrão em Pedra de Toque

Foto: Facebook de Mário Negrão

Quem conhece um pouco da grande música brasileira, já ouviu a bateria de Mário Negrão. Desde a década de 70 este grande músico tem marcado presença em centenas de discos e shows ao lado de Baden Powell, Chico Buarque, Egberto Gismonti, Carlos Lyra, Luiz Eça, Raphael Rabello, Paulinho Nogueira, MPB4, Clara Nunes, Quarteto em Cy, Toquinho e Vinicius, Antônio Adolfo, Paulo Moura, Leila Pinheiro e muitos mais. Agora, Mário Negrão Borgonovi (sobrenome agregado nos últimos tempos) está lançando Pedra de Toque, disco para marcar seus 80 anos, com nove faixas de samba jazz instrumental.

Vale lembrar que o rapaz nasceu em Campinas (SP), onde aos cinco anos começou a estudar acordeom. Nos anos 1960, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar engenharia agronômica e florestal. No segundo ano da faculdade conheceu amigos ligados ao jazz e começou a estudar bateria. Em 1968, quando se formou em engenharia, já estava decidido a optar pela música. Mas seguiu estudando: foi aluno do maestro Guerra Peixe e, enquanto tocava em uma ou outra casa noturna do Rio, em 1972 foi aprovado em concurso promovido pela Orquestra Sinfônica Brasileira, onde estagiou por dois anos, participando de alguns concertos.

Parou por aí com os estudos? Nada disso. Mesmo já requisitado baterista na música popular, com o primeiro disco solo (Madeira de Pé) lançado em 1980, em 2007 graduou-se em percussão no Conservatório Brasileiro de Música, onde foi professor de 2008 a 2012. Dois anos depois, concluiu mestrado na UniRio com a dissertação “O prato ride no samba carioca”.

Doutorado não precisa né?, isso Mário Negrão já vêm fazendo nos estúdios e palcos, acompanhado por gente do primeiro time. E aí chegamos a Pedra de Toque, seu terceiro disco solo, onde ao lado de dois clássicos da MPB estão sete novas composições próprias.

Ele, digamos, escalou três notáveis para os arranjos: os também pianistas Antonio Adolfo e Cristóvão Bastos, e o vibrafonista Ugo Marotta, que vieram com seus músicos. Os arranjos têm basicamente contrabaixos e sopros, com Marotta incluindo guitarra. É um desfile de bambas: Guto Wirtti (o gaúcho da turma), Jamil Joanes, Sérgio Barroso, Thiago Trajano, Danilo Sinna, Marcelo Martins, Rui Alvim, José Canuto, Zé Bigorna, Dirceu Leite, Idriss Boudrioua e mais. A edição em CD tem encarte com fichas-técnicas completas. Detalhe fundamental: a bateria de Negrão, com uso marcante dos pratos, é sempre sutil, exata, em nenhum momento cedendo à tentação de mostrar que ele é o cara à frente da história.

Os dois clássicos são Rosa Morena, do baiano Dorival Caymmi, que abre o disco, e Na Baixa do Sapateiro, do mineiro Ary Barroso. As sete composições de Negrão: Pente FinoJaspe NegroPedra de ToqueCaminho das PedrasFio da MeadaDiamante Azul e Ouro Velho. Pedras preciosas, música preciosa. 

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Autor: Cássia Zanon

Tradutora e jornalista

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