Ufanismo gringo

Parece que o Brasil é feliz

Para ler ao som de “Filhos de Gandhi”, na gravação de Gilberto Gil & Jorge Ben no álbum “Gil Jorge”

Nos últimos tempos, meu perfil no Instagram tem sido invadido por um “ufanismo gringo”. Gente que desfila descrições das muitas virtudes do Brasil, de seu povo, cultura, da culinária à música, passando, claro, pelo futebol. E, dá para arriscar, que, desde a madrugada de ontem, pelo slalom gigante.

O clique no post de algum influenciador com esse tipo de conteúdo detonou o algoritmo, que se mantém também graças ao misto de curiosidade pseudo antropológica e vício. Afinal, dá um certo prazer ser parte, alvo de tantos agrados. E vontade de botar pra rodar um álbum emblemático como esse da capa pescada na rede.

Esse bloco internacional alterna gringos estadunidenses, de diferentes países latino-americanos, franceses, britânicos, chineses… Tem quem já use o português, com diferentes graus de aprendizado (à la o meio brasuca Lucas Pinheiro Braathen), enquanto outros falam em seus idiomas, mas, legendados em português. O que demonstra ser conteúdo também direcionado para seus anfitriões. 

Poderia estar restrito à bolha das redes, mas, também é percebível na cobertura da folia em todo o país. Sejam nativos ou turistas de diversas partes do planeta, todos parecem se garantir na prova dos nove. Alegria, alegria. O boato poema-propagandeado por Maiakovski há um século aparenta ter se confirmado e generalizado: “Dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”.

Após duas semanas de chuva sem trégua, na tarde de quinta-feira, um mergulho nas águas de Ipanema manteve a sensação. O futuro é aqui,  na areia, no calçadão ou nas ruas do bairro ícone do hedonismo brasileiro, babelescamente vivenciamos uma euforia coletiva. Biquinis, cangas, bonés, camisas verde-amarelas também mostram que as cores da bandeira foram recuperadas. Na maioria dos casos, por ufanistas gringos. Mesmo que nativos tenham para comemorar os recentes prêmios no cinema (“Ainda estou aqui” e, ainda contando, “O agente secreto”), na música (Bethânia e Caetano no Grammy) e na Olimpíadas de Inverno.

“Canibais,”, gravura de Theodore Bry, 1593, a partir dos relatos
de Hans Staden sobre o Brasil

A boutade de Jobim “O Rio é bom, mas é uma merda. E Nova York é uma merda, mas é bom” pode se aplicar para o Brasil como um todo. E muitos dos ufanistas gringos também já devem ter conhecido o outro lado. Não vou me meter a historiador pop (já tem quem faz isso muito bem), mas, vale recapitular. “Descoberto” em 1500, quando era habitado há milênios, sofreu seguidas perdas desde então, passando pela independência fajuta, de pai para filho; o também tardio (o último país) fim da escravatura, sem reparação alguma para os povos trazidos da África, enquanto nunca parou o massacre dos originais; o primeiro golpe civil-militar, que criou a república eternamente frágil. Era para dar sempre ruim, mas, aos trancos e barrancos, um Brasil foi se criando e se reinventando. O projeto de eugenia não se afirmou, como prova a miscigenação, que, recentes estudos científicos apontam como fator positivo para a longevidade de humanos (sim, mas, má notícia para não humanos e a Terra). Mistura, no entanto, que não nos assegurou o mito da democracia racial, desmascarada cotidianamente.  

Assim, vamos nos equilibrando nesse 2026, ano em que voltaremos às urnas para exercer o direito de voto. Mais do que a fácil escolha entre o menos pior (o “estadista cordial”, hábil em acordos com deus e diabo) e os muitos piores, que eleitores saibam melhorar o Congresso e as câmaras estaduais de Oiapoque ao Chuí. O ano não acabou, vai começar para valer após o desfile das campeãs. Que o país do carnaval avance e a alegria seja a prova dos nove.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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