Todas as Esquinas do Mundo

Compositor, violonista, cantor e produtor Edu Aguiar, agora, ao lado do cantor Alcides Sodré, e com as participações do violonista Marcílio Figueiró e do percussionista Mingo Araújo, pilota seu Projeto 2

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PS (que vem antes): Compartilho com os leitores de AmaJazz texto de divulgação que fiz sobre disco que chegou às plataformas ontem. Coincidentemente, hoje, seu autor, Edu Aguiar, completa mais uma volta ao redor do Sol, “parabraços”, portanto.

Novo disco de Edu Aguiar, “Todas as Esquinas do Mundo”, como os anteriores, é um trabalho coletivo, creditado ao Projeto 2. Ao lado do compositor, violonista e cantor carioca estão o cantor Alcides Sodré (com carreira no samba, ligado à Império Serrano),  o violonista Marcílio Figueiró (que também divide os arranjos, a produção e a concepção musicais) e o percussionista Mingo Araújo (parceiro na concepção de percussão). E ainda, através das 11 faixas, se alternam cerca de 30 participações, entre letristas, instrumentistas e cantores, num trabalho que aposta na música sem fronteiras e sem concessões comerciais.

Título, sonoridade e poética de algumas canções têm o Clube da Esquina como referência. Algo que o próprio Edu deixa claro no texto que fez para o encarte e nas dedicatórias de algumas faixas. Homenagem que estava presente desde a concepção e o início das gravações, há dois anos.  Muito antes, portanto, da triste perda de Lô Borges, em novembro de 2025, e do também recente anúncio dos problemas de saúde de Milton Nascimento. O que faz desse álbum mais um belo tributo ao natural e muito musical movimento nascido nas esquinas de Belo Horizonte e que desde então não para de ressoar pelo mundo.

No entanto, como outras músicas mostram, as conexões e as esquinas poéticas e sonoras de Edu Aguiar  são mais abrangentes, passando também pela vanguarda paulistana (parcerias com o compositor Luiz Tatit e participação de outra integrante do grupo Rumo, a cantora Ná Ozzetti), pelo Nordeste (incluindo letras de Geraldo Azevedo e Ivan Santos; a voz de Xangai e de Vó Mera e as Netinhas), por Portugal (um poema de José Saramago musicado por Edu) e pelo Uruguai (a versão de uma música de Carlos Gómez, um dos grandes nomes do tango contemporâneo em Montevideo, cidade que, há mais de uma década,  tem sido um segundo lar para Edu). 

Edu Aguiar/Foto: Divulgação

Formado em Direito e Arquitetura, mas ligado em música desde que se entende por gente, há quase duas décadas, Edu Aguiar resolveu encarar de frente essa paixão. A partir daí tem investido no prazer (e no sacrifício) de se dedicar à arte de combinar sons, pausas e poesia. Entre 2010 e 2012, lançou dois álbuns solo usando o codinome Banda Filhos de Platão. Em 2019, “Entropia” foi creditado ao Projeto 1, junto a Camila Matoso e Mingo Araújo. Três anos depois, “Río Adentro”, com o Trio Entre Dos Ríos (ao lado dos uruguaios Eduardo Mauris e Gabriela Morgare), focou no intercâmbio entre as músicas do Brasil e do Uruguai. 

Uma das marcas no trajeto de Edu Aguiar é alternar o trabalho de diferentes parceiros letristas e cantores e instrumentistas.  Rede de conexões que já incluiu, no Brasil, Lenine, Zélia Duncan, Geraldo Azevedo, Fred Martins, Ferreira Gullar, André Siqueira, Joana Queiroz, Itamar Assiere, Janaína Sales; e, entre os uruguaios, nomes como os de Hugo Fattoruso, Nico Ibarburu, Sara Sabah, Pitufo Lombardo, Carlos Gómez e Gabriela Morgare.

Agora,“Todas as Esquinas do Mundo” reúne composições inéditas compostas nos últimos seis anos, com letras entregues por Luiz Tatit,  Geraldo Azevedo, Dudu Falcão, Ivan Santos, Marcelo Diniz, Murilo Antunes e o próprio Edu Aguiar. Ele assina sozinho a canção que fecha e sintetiza o espírito que move o disco; também fez a versão para “Passa”, balada do uruguaio Carlos Gómez; e, invertendo seu processo habitual de criação, musicou o poema “Dia Não” de Saramago.

Nas gravações, o quarteto formado por Edu (violão e voz), Sodré (voz), Figueiró (violões) e Mingo (percussão) contou com pontuais participações de diferentes cantores e instrumentistas. De acordo com o que cada canção pedia, passaram pelos estúdios, entre outros, a gaita de Rildo Hora, as vozes de Ná Ozzetti, Tania Amaral,  Xangai e Vó Mera e as Netinhas (grupo de cirandeiras da Paraíba), o piano e os teclados de Itamar Assiere, o violoncelo de Janaína Salles, o baixo de Bruno Aguilar, a viola portuguesa de Rui Poço, o baixo e a bateria dos uruguaios Gerardo Alonso e Martin Ibarburu.

O resultado é um álbum diversificado e coeso em sua proposta. Para ser percorrido de esquina a esquina. Boa viagem!

Antônio Carlos Miguel

Rua a rua:

“Todas as Esquinas do Mundo” (Edu Aguiar): dedicada a Milton Nascimento, tudo remete ao informal clube mineiro (e de apelo universal) nessa toada embalada por violões (Figueiró), percussão e efeitos (Mingo), piano (Itamar Assiere) e os vocalises de Edu. Sem palavras, diz muito. Tanto sobre o conceito do trabalho em si quanto sobre o que vem a seguir num disco movido por arte e afeto.

“Sol Poesia Luar”(Edu Aguiar e Murilo Antunes): a dedicatória vai para o Som Imaginário e a conexão com o Clube continua também no letrista escalado, o mineiro Murilo “Nascente” Antunes, em sua primeira parceria com Edu.

“Fica Perto de Mim” (Edu Aguiar e Dudu Falcão): é dedicada à companheira de vida e arte, Mônica Blumer, que divide a produção executiva do álbum com Edu. Falcão (letrista habitual de, entre outros,  Lenine e Danilo Caymmi) traduziu em palavras o tema lírico, que recebeu tratamento acústico de voz (Alcides Sodré), violões (Marcílio Figueiró), violoncelo (Janaína Salles) e o instrumento africano kalimba (Edu).

“Desta Vez” (Edu Aguiar, Fred Martins e Luiz Tatit): cantor e compositor de Niterói que, há mais de uma década, vive em Portugal, Fred foi o parceiro na melodia, enquanto a letra é de Tatit. Este, o cantor e compositor que, desde os anos 1980, faz parte do grupo Rumo, e com quem Edu já dividira uma canção no disco “Entropia” (2019). Aumentando a conexão, desde então, as gravações de Edu também têm sido masterizadas pelo filho de Luiz, Jonas Tatit (Estúdio Pratápolis, em São Paulo).

“Acalanto” (Edu Aguiar e Marcelo Diniz): Letrista frequente de Fred Martins, Diniz é mais um novo parceiro nesse disco. Dedicada aos filhos de Edu, Duda e Felipe, a canção é aberta e fechada pelas vozes do grupo de cirandeiras Vó Mera e as Netinhas (de João Pessoa, Paraíba). No fim, ainda há a locução do cantor e compositor baiano Xangai.

“Invenção do Desejo” (Edu Aguiar e Geraldo Azevedo):  Ao ouvir a composição ainda sem letra, Geraldo gostou tanto que saiu de sua zona de conforto, como comentou com Edu: “- Quase não escrevo letra por que tenho preguiça, mas, eu adoro”. E provou com todas as letras.

“Passa”(Carlos Gómez, versão em português por Edu Aguiar): Antes de fazer a versão dessa balada, que foi um sucesso no Uruguai com a cantora Laura Canora, Edu já tinha escrito duas canções com Gómez, um dos grandes nomes do tango contemporâneo uruguaio. Reafirmando a conexão com a cultura dos nossos vizinhos no extremo sul, a gravação também tem a participação da cantora uruguaia Tania Amaral. E participação mais que especial de Rildo Hora na gaita. A canção é dedicada ao parceiro e amigo Ivan Santos, recentemente falecido.

“A Dona da Cena”(Edu Aguiar e Ivan Santos): essa canção acabou sendo a última parceria com Ivan Santos, cantor e compositor paraibano/pernambucano que, há quase quatro décadas, vivia na Alemanha, onde morreu em 26 de novembro de 2025. Ivan tinha dois discos solos lançados e parcerias com, entre outros, Lenine, Pedro Luiz, Zé Renato, Philip Baden Powell e o grupo João Penca e Seus Miquinhos Amestrados.

“Dia Não”(poema de José Saramago musicado por Edu Aguiar): Em  2016, ao visitar a Fundação José Saramago, em Lisboa, Edu comprou o único livro de poesia do  escritor (e Nobel de Literatura em 1998). No voo de volta ao Brasil, foi capturado por  “Dia Não” e, em uma semana, fez a música. A partir daí, iniciou uma troca de correspondência com a Companhia das Letras (a editora de Saramago no Brasil) e a Fundação em Portugal. Sem resposta até, no ano passado, quando teve a ajuda do editor português Jorge Rui, que fez o contato direto com a viúva de Saramago, Pilar Del Rio. E esta autorizou a liberação sem qualquer ônus. O espírito lusitano é reforçado pela guitarra portuguesa tocada por Rui Poço

“Claro Que É Você” (Edu Aguiar e Luiz Tatit): Nessa esquina com a vanguarda paulista, ressoam mais ecos do fundamental Rumo, com a participação especial de Ná Ozzetti, cantora que também fez parte do grupo.

“Paz e sossego” (Edu Aguiar): para fechar o álbum e dedicada a Gilberto Gil, é um hino pela vida. Última composição do álbum, escrita (letra e música) por Edu no fim de 2024, aposta na arte como forma de alento. Nos versos finais, está a receita: “ouvir mais Gil e Caetano” e ainda ‘MilTons’, Chico, Paulinho, Ná, Lenine, Tatit…  Podemos acrescentar Edu Aguiar, Alcides Sodré, Marcílio Figueiró, Mingo Araújo e todos mais que transitam por “Todas as Esquinas do Mundo”, o disco.

                                                                                          (A.C.M.)

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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