Itamar Alves, num texto afiadíssimo, não apenas lembra de Baiano & Os Novos Caetanos como lança uma pergunta: qual o estado da arte do humor atualmente?
Para ser lido ao som de Baiano & Os Novos Caetanos em Vô Batê Pa Tu

(Foto: Fredrmatos/CC BY-SA 4.0/Wikimedia Commons)
Em conversa besta com amigos, levantou-se a questão de que o rock brasilis 80 nasceu longe de interiores e grotões. Nenhuma grande banda ou cantor veio de Santa Rita do Passa Quatro, ninguém glorificou Mossoró. Pelo contrário. Mesmo quem vinha de capital, como os porto-alegrenses dos Engenheiros do Hawaii, reclamava por estar longe demais das capitais – que eram São Paulo e Rio de Janeiro.
A explicação é moleza. A década de 80 foi o ápice da urbanização brasuca à toque de caixa – logo, absolutamente desigual entre as regiões – ao mesmo tempo que significou o ocaso do desenvolvimentismo varguista/militar iniciado na década de 50. Daí que modernização sônica e audiovisual, nos 80, foi um barato “pra fora” por questão de princípios: ranço de nacionalismos e de brejeirices, a ordem era se antenar com o que queríamos ser. Contudo, antes disso, a gente se olhava era “pra dentro”.
O grande barato de quem assiste ao documentário sobre Chico Anysio na Globoplay é sacar o Brasa das artes populares durante o furacão do progresso a jato, da diáspora nordestina, da educação precária, do desenvolvimentismo pela força do ódio. Ou seja, do período que vai dos estertores do Estado Novo ao fim da Ditadura Militar. No processo, a invenção da televisão deixou Orfeu estático na sala de estar, e o brasileiro passou a se ver, em preto & branco, no furdunço da comédia e do drama visual. Enfim, através do espelho, passou a se perceber. Não faltaram Homeros tropicais a criarem odisseias com o homo brasilis, e a televisão foi o vetor principal do país que queria aprender a comer com garfo e faca – se estivesse comendo, já estava bom.
O maior astro do humor naquelas décadas foi um migrante cearense que construiu um batalhão de tipos do povão, todos seguindo a fórmula consagrada do rádio: bordão, repetição, interação. O combustível para os personagens era o brasileiro médio, que tinha que ajustar os barroquismos sociais (cordialidade, malandragem, caipirice etc.) ao tal do progresso civilizatório. Como dizem os cariocas, foi um esculacho. Sucesso total. Chico Anysio jogou em todas as pontas e ainda coordenava o jogo dos outros, já que havia desenvolvido um sexto sentido afiadíssimo – depois de uma trabalheira da moléstia, diria – sobre o que funcionava ou não para as massas, fosse na tela, no papel ou no disco.
A relação de Anysio com a música, aliás, é um ponto alto do documentário. Armado com voz de barítono e já por dentro das mumunhas de composição durante a era do rádio, Chico encontrou o parceiro ideal em Arnaud Rodrigues, o Paulinho Cabeça de Poeta do duo Baiano & Os Novos Caetanos. Mega criativo, Arnaud também escrevia e atuava, transitando entre caciques da MPB e a molecada maconheira do fundão, sempre aberto a fundir um ritmo regional com uma pegada pop irresistível – na dúvida, confira um dos discaços de Arnaud, o seminal Murituri, de 1974, com participação do lendário Lanny Gordin.
Arnaud & Chico compuseram a irresistível Vô Batê Pa Tu, que deixou claro o quanto a parceria transcendia a comédia. A música era um xote safadérrimo embalando uma letra lindamente cifrada sobre as altas transações da censura e das delações em voga no país dos porões. Baiano & Os Novos Caetanos ironizavam em nome e canções a leva baiana tropicalista de Gil e Caetano, junto com os então guris dos Novos Baianos – há que se lembrar que o semanário carioca O Pasquim chamou o sucesso do pessoal de “invasão dos baihunos”. Metalinguagem regional é isso, malandragem.
A dupla criou outro disco excelente em 1975, Azambuja & CIA, feito a partir do programa de TV que Arnaud escreveu para um novo personagem de Anysio, o estrogonófico (alô, Maurício Valladares) Paulo Maurício Azambuja. Na ficha técnica da bolacha, membros do Azymuth, o sax de Victor Assis Brasil e o mundo inteiro suingando. O tamanho do sucesso da parceria fica claro no comentário de Chico sobre o primeiro disco de Baiano & Os Novos Caetanos: “Com o sucesso de vendas do LP, o senhor Harry Rozemblit, dono da companhia de discos CID, comprou três coberturas na avenida Delfim Moreira. O Eddie Barclay (dono do selo francês Barclay), na época, nos convidou para ir à Europa para participar do Miden, em Cannes, e eu não fui. Disse a ele que tinha que fazer um show em Curitiba. Que loucura a minha! Ele ficou sem entender. Como é que dois artistas esnobavam um dos maiores encontros da música internacional do planeta?!”.
Quando os anos 80 vieram, o novo humor apareceu – Armação Ilimitada, TV Pirata etc. – e aí Anysio declarou o fim da comédia. Ele simplesmente não entendeu as dinâmicas, onde a piada entrava, quando era para rir. Parecidíssimo com outro Chico, o Buarque, ouvindo Racionais MCs na década de 90 e declarando o fim da canção – haja Fukuyama para tanta declaração de fim das estruturas, na tensão pré-milênio. Convenhamos, Anysio não estava exatamente errado, grande parte daquele tipo de humor morreu com sua era. Os personagens que ficaram no imaginário, no geral, são os Barbosa ou os Zeca Bordoada da vida; ou seja, os que entraram no esquema bordão, repetição, interação.
Qual o estado da arte do humor atualmente? Taí pergunta cuja resposta é macunaímica, já que existem várias. Alta fragmentação de consumo audiovisual e virtual abolição de filtros editoriais derreteram as mumunhas corporativistas de como se montava um astro (bom, naquelas). O que não significa que a roda parou de girar, já que novos comediantes surgem aos quilos pelas redes e plataformas da vida online. Ainda mais interessante, alguns “criadores de conteúdo” nem comediantes o são, mas incorporam a trinca bordão, repetição, interação como se Jararaca & Ratinho o foram.
O novo nunca mata o velho, só o come e o absorve. E, às vezes, se fortalece.
