O carnajazz de Antonio Adolfo

Tárik de Souza mostra como o pianista injeta jazz e improvisos em alguns clássicos que marcaram a folia brasileira em diferentes épocas

Pra ser lido ao som de Antonio Adolfo em Carnaval – The Songs were so Beautiful

Há pelo menos dois relevantes precedentes de músicas carnavalescas turbinadas fora da folia momesca. O samba Me Deixa em Paz (“Se você não me queria/ não devia me procurar”), do genial Monsueto Menezes (com Airton Amorim), estouro da rainha do rádio Linda Batista, em 1951, ralentado com dramaticidade e beleza pelos cortantes vocais de Milton Nascimento e Alaíde Costa no disco Clube da Esquina, de 1972. E a marchinha sarcástica A Turma do Funil (“todo mundo bebe/ mas ninguém dorme no ponto/ nós é que bebemos/ e eles que ficam tontos”), de Mirabeau, Milton de Oliveira e Urgel de Castro, sucesso dos Vocalistas Tropicais, em 1956. Ela foi remodelada sob nova introdução e geolocalização (Turma do Funil no Baixo Leblon) com harmonia bossa nova por Tom Jobim e Chico Buarque, no disco que o maestro gravou com Miúcha, em 1979. Mas é outra a proposta do pianista carioca Antonio Adolfo em seu novo álbum, Carnaval – The Songs were so Beautiful (AAM), com linda ilustração do fabuloso artista gráfico Elifas Andreato (1946-2022), editada por seu filho Bento Andreato. Radicado há décadas nos EUA, em trânsito permanente com a terra natal e seus músicos, Adolfo injeta jazz e improvisos em alguns clássicos que marcaram a folia brasileira em diferentes épocas.

“Desde muito jovem sou apaixonado pelas canções do carnaval, especialmente as dos ritmos típicos como marchinhas, marchas rancho, sambas e frevos”, enumera Adolfo no texto de apresentação. “Costumava ir com minha família ver os blocos de rua e bailes infantis durante os anos 50. Além de me divertir com as festividades, máscaras, fantasias, confetes e serpentinas, ficava fascinado com as bandas tocando e o público cantando aquelas belas canções”, exaltou.

Inspirado por essas lembranças quase proustianas, o roteiro abre alas, piano lento, a bordo do malemolente samba do talentoso Pedro Caetano É Com Esse que Eu Vou (traduzida para o público americano como I’m Going with this One), êxito do conjunto vocal Quatro Ases e um Coringa, de 1947. E aos poucos ganha a adesão dos sopros gingantes, bateria compassada e o baixo pontiagudo. Destaque para o solista Jessé Sadoc (trumpete e flugelhorn) que conduz o tema em lautos improvisos, muito além do plot inicial. Para esta abordagem heterodoxa de canções naturalmente singelas de fácil assimilação nos bailes, Adolfo convocou um elenco de primeira grandeza. Além do mencionado Sadoc, há ainda nos sopros, o francês radicado há anos na MPB, Idriss Boudrioua (sax alto), Marcelo Martins (sax tenor e flauta) e Rafael Rocha
(trombone). E ainda, Lula Galvão (guitarra), Jorge Helder (baixo), Rafael Barata (bateria e percussão) e André Siqueira (percussão). Após uma lírica cortina de piano, essa turma se esbalda no icônico frevo Vassourinhas (Matias da Rocha/Joana Ramos), um inescapável arrasta povo no passo das folias pernambucanas, desde 1956. Um clipe recém-lançado traz a gravação ilustrada por antigas imagens de passistas de rua e bailes. O sax sola em rodopios a todo vapor, há ataques dos sopros em naipe e uma costura de guitarra altissonante.

Bloco rival do célebre Cacique de Ramos, o Bafo da Onça (do bairro do Catumbi) ganhou um hino de um de seus mais ilustres integrantes, o compositor Osvaldo Nunes, em 1962. O título é sintético: Oba (mas Bafo da Onça foi vertido na ficha técnica para Breath of the Jaguar) e se presta aos muitos breques e retomadas do batucado samba. Na gravação, os sopros já abrem em dissonância, suporte para solo jazzy de flugelhorn. O fiapo melódico central é desenvolvido ao paroxismo com intrincadas combinações de timbres e texturas. Segue o baile com a marchinha onírica Mal-me-quer (“She loves me, she loves me not”), de Newton Teixeira e Cristóvão de Alencar, que a voz aveludada de Orlando Silva popularizou, em 1940. Leves rufares de bateria atrasam o compasso inicial, antes que o acirramento do ritmo se dê pela incorporação dos sopros em naipe que abrem espaço para diversos solos. Antes de continuar a fuzarca, Adolfo abre um parêntesis político no samba enredo engajado Vai Passar”, (It’s going to be OK), em que os autores Francis Hime e Chico Buarque pediam passagem para a redemocratização do país, em 1984.

Um dominante tamborim marca a cadência veloz da composição repleta de reviravoltas, atravessada por um sax fraseando solto. A volta ao clima momesco se dá de forma cadenciada, com a marcha rancho As Pastorinhas (Girl Singers of Carnaval), de dois ícones do bairro de Vila Isabel, os compositores Noel Rosa e Braguinha, o João de Barro, propagada por Silvio Caldas, em 1938. O piano expõe o tema com lirismo, antecedendo desenhos de naipes de sopro e solos de trumpete, flauta em arabescos leves, e bordado de guitarra. O samba pede passagem através de um de seus clássicos de todos os tempos, Exaltação à Mangueira (Eneas Brittes da Silva/ Aloisio Augusto da Costa) (Ode to Mangueira), trombeteado pela excelsa voz do principal intérprete de enredos da escola, Jamelão, em 1955. Aqui a bateria desanca os couros na abertura e fechamento da faixa, com adesão percutida do piano, cama para trumpete e sax em performances jazzísticas.

Mais uma marchinha ingênua, uma das últimas nesse formato a fazer sucesso, A Lua é dos Namorados” (Armando Cavalcanti/Klecius Caldas/ Brasinha) emplacou na voz maviosa de outra rainha do rádio, Ângela Maria, em 1961. Traduzida para The Moon Belongs to Lovers (“todos eles estão errados/ a lua é dos namorados”, poetisa a letra), ela tem o piano como fio condutor do devaneio da canção, flauteada num improviso jazzístico, permeada pelo dialogo dos sopros. E como tudo acaba em samba, como diz o velho bordão, a última faixa é um clássico absoluto do ramo, Agora É Cinza (Now it is Ashes), da dupla forjada no celeiro do Estácio, Alcebíades Barcellos, o Bide, e Armando Marçal, lançada pelo precursor do coloquialismo vocal, Mario Reis, em 1933. Os versos lamentosos (“Você partiu de madrugada/ e não me disse nada/ isso não se faz”), obviamente omitidos na versão instrumental, parecem insuflar o ataque elevado dos sopros na segunda parte. E o tema, na dialogia dos improvisadores, ganha a grandeza digna da obra-prima que retrata. Mesmo na folia nossos craques não brincam em serviço.

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Autor: Cássia Zanon

Tradutora e jornalista

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