Na terceira década do século 21, uma nova MPB dá as caras longe de algoritmos e holofotes e do convencional
Para ler ao som de três interpretações de “Hello”, em 2021: Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, 2023: Zé Ibarra e 2024: Martina da Silva (PS2: estavam invertidos os vídeos de Zé e Ibarra, agora, OK, I hope).
Em tempos de IA é óbvio que, há muito, o que conhecíamos como indústria da música largou a mão da arte. As grandes e burras gravadoras, que quase não mais gravam, não mais importam. O público que nasceu e cresceu com as plataformas não liga a mínima para o nome da “casa discográfica”. Mesmo que estas, ancorados no formidável catálogo acumulado em mais de um século de música gravada, tenham voltado a fazer muito dinheiro na Era do Streaming. Elas que, agora reduzidas a três – Sony, Universal e Warner, cada qual recheada de selos e subselos que adquiriram e também foram enormes até o início do século 21 -, tinham perdido o bonde da história quando tentaram barrar a nova forma de ouvir e consumir música.
A informação de qual é a gravadora perdeu a importância até para quem nasceu e cresceu quando os agora cultuados Long Plays de vinil rodando em 33 1/3 se consolidavam como o formato preferencial. Em parte pelo fato de as multinacionais (outro termo em desuso) terem largado a mão. E de o negócio ter caído nas mãos de outros atravessadores, as agregadoras de conteúdo para as plataformas, fazendo um serviço que, desde o início, deveria ter sido diretamente dos selos ou artistas independentes.
Podem soar meio cabeça e nariz de cera os dois parágrafos iniciais, mas, têm a ver com a essência desse texto, anunciada em título e subtítulo. É nesse universo de referências difusas que tem circulado uma MPB de cara nova, alternativa, pop, até internacional, difícil de ser catalogada por prêmios nos quais transito como consultor, curador (ou, se passando por um francês de sotaque carregado, currador). Há duas décadas, quando o Milênio começava a largar as fraldas, numa reunião em São Paulo do comitê brasileiro do Grammy Latino, um dos participantes, João Marcelo Bôscoli já tinha alertado para essa questão. Às voltas com o selo Trama, ele pedia que artistas brasileiros mais alternativos, pop (o que na época cunhei como MPopB) tivessem lugar na categoria e sigla MPB. Estava correto, e concordei com os argumentos na época. O tempo não para e uma nova safra desses praticantes de canção popular brasileira diferentona se manifesta nas plataformas. Portanto, para reduzir uma história que se alonga, vamos aos exemplos, em ficha que caiu após conhecer a terceira versão de uma canção brasileira in English. Engenhoso e proposital broken English, “Hello”, letra espirituosa, feita de associações livres e espertas.
“Hello
I’m freaking out
I just can’t speak Portuguese
I think is a thing of my subconsciente
Perhaps I don’t wanna that you understand me
I don’t wanna to speak another language
Portuguese is a very pretty língua
But I think my tongue is like a criatura
She make sounds that I can’t entender
I never eat tender in carnaval
I don’t know why Elvis canta Love Me Tender
If is a comida de Christmas
I love brazilian sotaque
I love my jeito de be
I hate imperialism Trump sausages ghosts and the industrial
culture of United States
But sometimes
eu gosto também
Hello”

“Hello” voltou como a faixa de abertura de “Bim Bom” (La Reserve Records), disco de MPB de uma cantora nascida e criada em Nova York, filha de um brasileiro e uma estadunidense, Martina da Silva. Lançado no fim do ano passado, é rotulado como jazz, mesmo que essa e suas outras seis faixas sejam indiscutivelmente MPB, a continuar pela que dá título, uma das raras composições de João Gilberto. E ainda “É preciso perdoar” (de Alcivando Luz e Carlos Coqueijo, mas reconhecida mundo a fora graças à voz e ao violão de João), “Wave” (Jobim), “Travessia” (Milton e Brant) e, caso raro para artista e disco dos EUA, duas de Chico Buarque (“A Rita” e “Tatuagem”, esta com letra de Ruy Guerra). Martina, que antes tinha um grupo de jazz vocal focado nos standards, Ladybugs, não para de gravar solo, foram dez desde a pandemia, o último, “Library”, em 2025.

Mas, newyorker, com algum sotaque em seu bom português, Martina está fora das fronteiras, e da curva – assim como a jovem espanhola Rita Payés, que, em 2019, no álbum “Imagina”, mostrou entre outras coisas que a “Senhorinha” de Guinga e PC Pinheiro já tinha virado uma cidadã mundo. A ideia é apontar para uma nova MPB do… Brasil. O “Hello” de Martina fez o escriba voltar a ouvir “Marquês, 256” (Coala Records, 2023), disco solo de estreia de outro representante dessa cena, o “bala desejo” Zé Ibarra. Ele que acaba de confirmar seu talento, e de sua geração,

no recém lançado segundo solo “Afim” (Grande Arte/Coala), novamente com oito faixas. Ibarra assina três canções, “Infinito em nós”, “Transe” e “Essa confusão” (esta em parceria com sua colega no Bala Desejo Dora Morelenbaum, que, recentemente, também fez seu disco solo de estreia); enquanto diferentes artistas novos completam o repertório, incluindo mais duas de Sophia Chablau (“Segredo” e “Hexagrama 28”), o seu colega na banda Dônica Tom Veloso (“Morena”) e Itallo França (“Retrato de Maria Lúcia”). Ecos pós-tropicália (nos quais o álbum “Cantar” de Gal Costa é uma das referências) são reforçados e atualizados pelos arranjos de sopros de Jaques Morelenbaum (assim como fizera no disco do Bala Desejo e no da filha Dora, “Pique”).

No embalo de “Hello”, outra ficha caiu. A canção de Sofia Tagliaferri de Castro Sabino veio ao mundo em “Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo” (Risco, 2021). O grupo é rotulado como indie rock, mas transita e arrisca sem freios por gêneros e, em seu nascedouro, “Hello” é já bossa-novista, embalada em guitarra semi-acústica. Seja o que for as canções, merecem ser ouvidos este e o segundo álbum, “Música do Esquecimento” (Risco, 2023). Neste, além das canções de Chablau, somos apresentados às de outros integrantes do grupo, como “As coisas que não te ensinam na faculdade de filosofia” (Vicente Tassara) e “Último sexo” (Theo Cecato).

Para quem quiser conhecer muito de uma MPB que não se enquadra num só gênero, o selo Risco (Página do Selo Risco no Instagram) é bom atalho e fonte segura. Criado em 2014, lá também estão discos de, entre outros, Ana Frango Elétrico (esta, ultrapassando a barreira do milhão no Spotify), Terno, o grupo de MPB-jazzy quartabê, Maria Beraldo e até o novo de Arnaldo Antunes, “Novo mundo” (com participações de Ana Frango, o talking head David Byrne e Marisa Monte).

Ainda pelo Risco vai sair em breve o novo do baixista, compositor, cantor Alberto Continentino, “Cabeça a mil e o corpo lento”. Vai ter uma audição para convidados em Botafogo no próximo domingo e vou arriscar. É uma lista de artistas que poderia engrossar muito, incluindo sem forçar os neurônios a dupla Raya & João Mantuano, cujo álbum de estreia, “Coisa Nossa” (Toca Discos), terá show de lançamento na quarta-feira que vem (18/6, Teatro Prior, no Jockey Club do Rio); ou cantoras já com mais quilometragem nesse século como Simone Mazzer, Silvia Machete e Tamy.
PS: Esse texto vai para o amigo Luiz Fernando Borges, que, admirador de de Ladybugs e Martina da Silva, insistia em me aplicar. Em 2017, de passagem por Nova York, K e eu fomos assisti-la no Bathtub Gin.

O local, escondido na Nona Avenida, tenta reproduzir um típico speakeasy, como os da época da proibição de bebida alcoólica nos EUA. Mas, estava abarrotado de gente, que entornava e falava alto como se não houvesse amanhã. Mais para speakloud, portanto, encobrindo o repertório na sua maioria da época da Lei Seca, belezas como “Who cares? “ e “I’ll never be the same”, que Martina e seus quatro músicos (trombone, contrabaixo, saxofone e guitarra) tentavam mostrar, inspirados em discos de Billie Holiday, Ella Fitzgerald e companhia. Acabamos saindo no intervalo, após cerca de 50 minutos e duas doses de gin, sem dar o hello para cantora meio brasileira. As tentativas de foto também falharam, mas, para provar, uma foi recuperada.
