Com exclamação. Sem anistia, bobões!

Postura do grupo IRA! tem que ser aplaudida

Para ler ao som de: Dias de luta

Nos 1980, fui um entusiasta de primeira hora do novo rock brasileiro que dava as caras. Bipolar e parcialmente.  Talvez “multipolar”, já que tanto nos alternativos (“Som Três”, “Pipoca Moderna”, “Bizz”…) quanto na então grande imprensa (defuntas publicações como “Manchete”, “Fatos & Fotos”, “Jornal da Tarde”), continuei escrevendo e gostando do que sempre me alimentara: de Caymmi e Jobim e Clementina, Cartola, Caetano, Chico  ao pop anglo-americano, do jazz e do clássico em diferentes fases à música sem fronteiras estilísticas e geográficas. E prossegui nessa toada a partir de 1992 n’O Globo (até 2011).

Parcial devido à proximidade com algumas figuras-chave daquela onda. A começar por um dos precursores, o criador de Gang 90 & Absurdettes, Julio Barroso, amigo desde a adolescência e que, entre 1975 e 76, tinha me escalado como copiloto da revista “Música do Planeta Terra”. E ainda, em diferentes graus de amizade (ou amigos em comum), Lulu, Lobão, Barão/Cazuza (via Ezequiel), Dus(s)ek, Miquinhos Amestrados, Russo (via Brother, em Brasília, e o leblonense Borges ), RPM (via o jornalista PRM que virou cantor), Ed e, continuando pelos 1990, Cássia (via Toledo, e Zeca de novo)…

Como se sabe, à la Ginsberg, vimos as melhores mentes dessa geração precocemente mortas. E a onda virar marola, falida esteticamente.

Nariz de cera autocentrado para chegar ao título. Sem anistia para o oportunista como sempre João Luiz Woerdenbag Filho. Mesmo que ele pareça já ter garantido a sua por parte de colegas e da ex-grande mídia. Com cara de paisagem, faz programas de TV, encontros no palco com parças, posando em cima do muro. Mas, antes, deve autocrítica. Não vamos esquecer, abraçou o olavismo, o lava-jatismo, a tese da ditabranda, foi visitar o então candidato no hospital, fez campanha para o pior presidente brasileiro influenciando muitas cabeças.

Há duas, três semanas, recebi link de algum podcast no qual  Lobinho dizia que sempre esteve além de direita ou esquerda. Apelava para o histrionismo habitual após ser questionado sobre seu apoio a Bostonauro em 2018. Foi pergunta que chegou em vídeo do historiador pop-beatnik-dylanesco gaúcho. Este, agora, tem batido pesado no ex, mas, como boa parte da mídia brasuca, embarcou no antipetismo cego que garantiu a farsa do impeachment, a sucessão do traíra Temer, a temporada atrás das grades curitibanas do nove dedos e a ascensão do bolsonarismo. Dele, ouvi em almoço dominical (sim, Bueno, fiquei devendo a retribuição combinada) algo como “Só vou descansar quando Lula for preso”.

Outubro de 2026 já é. Como escancara o recente bate-boca entre Nasi e uma minoria bolsominion na plateia do grupo. Enquanto, de trumpatada em trumpatada, aumenta a incerteza no mundo, o Brasil  vive clima de eleição. E de segundo turno. Sem opção além do velho sapo barbudo – ou do candidato que o substituir em caso de algum impedimento.

Mais sobre o IRA!, gostei dos álbuns iniciais, dos projetos solos de Scandurra (que também passou pela Gang 90 e depois se casou com a “absurdette” Taciana Barros que garantiu alguma sobrevida à banda). Mas, há décadas, não acompanho, nem o que restou de sua geração. “Dias de luta”, faixa do segundo álbum, em 1986 , e agora pescada no streaming, ainda serve para cantar em 2025. Eles vivem, ainda estão aqui. Viveram e aprenderam.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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