Encontro com Guinga e Dylan numa esquina do Leblon

“Um completo desconhecido” funciona como uma viagem à Nova York dos primeiros anos 1960

Para ler ao som de Dylan por Chamalet: “Like a rolling stone”

Há poucos anos, em turnê pelo interior dos EUA, Guinga precisou imprimir certa quantidade de partituras de suas composições, que vende após as apresentações, reforçando o cachê. Enquanto esperava o serviço, no rádio do carro, foi surpreendido por uma canção profunda, mais melancólica até do que a “Angel eyes”, na gravação de Sinatra com arranjo de Nelson Riddle, que tocara momentos antes e quase o levara às lágrimas. 

Era rústico, algo mambembe, mas, o tema de e com Bob Dylan, como ficou sabendo após o locutor anunciar, tocou fundo no coração do compositor e violonista carioca. Guinga, que, no século XXI, manteve o que conhecemos como MPB no seu patamar mais alto, aquele de Tom, João, Caetano, Chico, Gil, Edu…, foi capturado naquele momento por um artista que ignorara por décadas.

acm, Guinga, Nelson e Leandro dylaneando no Leblon

Essa história nos foi contada pelo próprio, numa esquina do Leblon, na noite de ontem. Vindo de sua caminhada habitual pela orla, Guinga se deparou com três sujeitos impactados por “Um completo desconhecido”, logo após a sessão, no dia de sua estreia no Brasil. Eu, completamente suspeito, ligado em Dylan desde o fim de tarde naquele agosto de 1966, quando ouvi no apartamento que nos (mãe e pai e quatro filhotes) apertávamos na Rua Payssandu. Já os dois amigos músicos estavam algo céticos antes da sessão: o “miquinho desamestrado” Leandro Verdeal, mesmo sendo um aficionado de Robert Allen Zimmerman, não costuma aturar biopics de artistas de música; enquanto Nelson Meirelles, o “ex-rapaz de vida fácil” (grupo de meados dos anos 1980 com Alvin L, que lançou apenas um ótimo compacto simples), é daqueles que nunca suportou a voz anasalada do Prêmio Nobel de Literatura.

Capa original do segundo álbum, com
Dylan e Suse Rotolo em Manhattan

Mais não vou comentar sobre o filme, que faz um recorte entre 1961, ano em que o jovem de 20 anos chega como um vagabundo à cidade de Nova York, e julho de 1965, quando escandaliza os puristas com sua participação acompanhado da elétrica Paul Butterfield Blues Band no Newport Folk Festival. Desde então, Dylan passou por muitas e antagônicas fases e continua em sua turnê sem fim, suicidando seu repertório em shows que incomodam até aficionados de diferentes gerações. Melhor viajar no tempo e conferir in loco o jovem artista reencarnado em Timothee Chalamet – que aprendeu a tocar e cantar, gravando ao vivo todas as muitas cenas musicais. É o destaque de um elenco igualmente brilhante, incluindo Edward Norton (como Pete Seeger), Elle Fanning (no papel da namorada Sylvie, este o nome fictício dado para Suse Rotolo, a moça que aparece na capa do segundo álbum do cantor) e Monica Barbaro (no de Joan Baez).

Como cinema, “I’m not there”, de 2007, dirigido por Todd Haynes, pode ser mais interessante e ousado. Neste, diferentes personas de Dylan são recriados por, entre outros, Christian Bale, Heath Ledger e Cate Blanchett (esta, muito convincente como o Dylan na fase elétrica de 1965 e 66). Mas, o filme de James Mangold tem outra proposta e cumpre o que pretende. “Um completo desconhecido” flagra o nascimento do mais influente  artista popular dos EUA na segunda metade do século passado.

PS: texto atualizado, após Leandro me corrigir, ele sempre curtiu Dylan.

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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