Documentário joga luz sobre a arte da flautista, compositora, pianista e produtora Léa Freire (para ler ao som de “Risco”).
Perto do fim, Léa Freire comenta o quanto é inclassificável a sua música. O pessoal do jazz diz que ela faz choro, enquanto o pessoal do choro diz que é jazz. Na música clássica, é tida como popular, mesmo que as recentes sinfonias e as intrincadas e belas peças para flauta ou grande orquestra a coloquem como uma das grandes compositoras contemporâneas no mundo. Chegou a tanto graças a uma abrangente formação, que passa por tudo isso e muito mais. Bossa nova, samba-jazz, choro, samba, jazz, clássico, os sons da natureza e do aparente caos urbano.

Grandeza é a palavra para traduzir a carreira dessa flautista, pianista, compositora, produtora paulistana quase desconhecida em seu país. E é isso o que nos mostra com todas as provas A Música Natureza de Léa Freire, documentário dirigido por Lucas Weglinski que chega às telas grandes com distribuição da Descoloniza Filmes, após, a partir de 2022, fazer o circuito de festivais e colecionar prêmios mundo afora. Link para o trailer: Trailer do documentário
Weglinski, também o roteirista, e que tem no currículo, em dupla com o também câmera Joaquim Castro, outro documentário premiado, Máquina do Desejo (sobre o Grupo Oficina e Zé Celso Martinez), vai aos poucos montando o perfil. Na abertura, alterna closes de um piano e da velha intérprete (e compositora) de tema (ok, tentemos classificar) entre o jazz e o clássico contemporâneo, com trechos de velhos filmes familiares sem som. Textura, (falta de) cor, figurinos, penteados, móveis remetem ao fim dos anos 1950, início dos 60, permitindo associar aquela menina loura em festas e brincadeiras à pianista.

A seguir, uma série de depoimentos de contemporâneos (ou até mais velhos) de Léa, incluindo Filó Machado (violonista, compositor, cantor que é outro gênio quase desconhecido), Silvia Góes (pianista idem), Alaíde Costa, Arismar do Espírito Santo, Amilton Godoy, levam à pergunta: mas, cadê a protagonista?
Aos poucos ficamos sabendo muito de sua biografia. Após menos de um ano no CLAM para estudar flauta, a garota de 16 anos foi convidada por Godoy para se tornar uma das professoras do Centro Livre de Aprendizagem Musical, criado em 1973 pelos integrantes do Zimbo Trio. Para o desespero da família de classe média, ela emendava as oito horas como professora pela ronda dos bares musicais de São Paulo, tocando samba e choro e o que mais viesse. Ao receber uma dura, trocou a casa dos pais pela de Alaíde Costa, que a abrigou por dois anos e meio. Em fins dos anos 1970, uma mudança mais radical, SP por um curso em Berklee College of Music. Mas, lembra, aprendeu mesmo foi nas muitas noites que ganhou frequentando clubes de jazz como o Village Vanguard. “Como o dinheiro só dava para uma sessão, a segunda era na escadaria que dá acesso ao clube no subsolo”.

De volta à cidade natal, por mais de uma década, a música teve que dar lugar aos cuidados de um casal de filhos. E o trabalho como administradora financeira, do qual se livrou em parte, quando recebeu a sugestão da terapeuta de retomar a luz, as coisas que mais gostava na vida. Através do selo Maritaca Discos, que criou em 1997, Léa passou a lançar seus discos solo (Ninhal, é o primeiro) ou em parcerias com Teco Cardoso, Bocato, Amilton Godoy.
Num meio ainda masculino (e machista) como o da música, Léa é um exemplo de mulher e artista, como atestam os depoimentos das jovens musicistas que se seguem, incluindo Tatiana Parra, Erick Ribeiro e Joana Queiroz. Dos EUA vêm o aval dos flautistas Jane Lenoir e Keith Underwood, para quem Léa está no mesmo patamar de Jobim, Pixinguinha, Gismonti e Hermeto. À tal lista, merece ser adicionada Chiquinha Gonzaga.
Mesmo para quem acompanha os voos de Léa a partir de Maritaca, em discos como Cartas Brasileiras, Quinteto (com Teco Cardoso, mais Sylvinho Mazzuca, Benjamin Taubkin e A.C. Dal Farra), A Mil Tons (com Amilton Godoy) e Antologia da Canção Brasileira (volumes 1 e 2, com Bocato), A Música Natureza de Léa Freire é uma revelação. Para ficar em um exemplo, o tema orquestral Turbulenta, que assistimos durante os créditos finais. Sons e imagens (diferentes ângulos dos instrumentistas misturados, como que dançando) e informação conjugados.
