A nuvem Rita Lee

Maria Duhá-Klinger reúne em pesquisa as melhores fanpages dedicada à Rita Lee e prova que ela ainda continua fazendo um monte de gente feliz

Para ser lido ao som de Rita Lee e Roberto de Carvalho em Voando

Dizem que nos caminhos da busca da felicidade, há uma porta com chave, que, ao abri-la, encontramos um dos maiores sentidos da existência: pertencer a uma comunidade. Em qualquer atuação: no trabalho, família, amizades, religião, esportes, lazer, sindicatos, partidos políticos, gangues e em tudo mais que nos dá a condição de humanos, existe a fascinação de ser parte de um grupo, com um denominador comum. Os fã-clubes, por exemplo.

O primeiro fã-clube oficial que se tem notícia foi criado em 1899 nos Estados Unidos. A finalidade era alinhar os torcedores do Kansas City Baseball Club. A etimologia da palavra “fan” vem de “fanatic”. No Brasil a grafia modificou-se para fã-clube – isto mesmo com hífen.

No Brasil, a febre dos fã-clubes começou há aproximadamente um século, tendo uma curva ascendente com o ápice nos programas de auditório da Rádio Nacional, nas décadas de 40 e 50. A Nacional era uma entidade governamental que transmitia programas ao vivo. Carmem Miranda, a nossa pequena notável, foi a maior representante deste meio. Além dela, artistas como Cauby Peixoto, Ângela Maria, Dalva de Oliveira e outros faziam parte do elenco que brilhava nas ondas do rádio. Mas os grandes fã-clubes eram os das cantoras Emilinha e Marlene. As fãs digladiavam-se verbalmente nas filas em frente ao estúdio, chegando em alguns casos a partirem para agressões corporais. Bullying da melhor qualidade!

O meu primeiro encontro com um verdadeiro fã-clube brasileiro foi na infância. Dentro de minha casa, estabeleceu-se entre mim e minhas irmãs e todos os que lá viviam a rivalidade Marlene x Emilinha. Emilinha era boazinha, princesinha, bem-comportada. Marlene (que tomou este nome de Marlene Dietrich) era livre, leve e solta. Eu era Marlene!

Com o advento do universo digital o fã-clube tornou-se arcaico e transformou-se na fanpage, páginas criadas por indivíduos ou instituições, que agrupam pessoas de diferentes origens culturais e sociais, idades, escolaridades, raças e localização geográfica, que trazem em comum uma ligação emocional com o ídolo a ser reverenciado. Todos dividem com o objeto da sua adoração os mesmos valores.  Algumas fanpages tem intuitos comerciais: monetização em clima de adoração. Outras denotam respeito, admiração e fazem um tributo verdadeiro a quem a página é dedicada.

Como todo fenômeno de comunicação dentro da nossa aldeia global, o da fanpage está sendo dissecado pelos acadêmicos. Na área da psicologia, teorias são criadas baseadas na premissa de necessidades existenciais, procura de modelos, solidão, suporte emocional e acima de tudo aceitação no grupo social.

Para colaborar com a academia, criei um “case study” baseando-me numa busca sobre fan pages no Google. A análise final deste case tomou como amostra uma pesquisa realizada, aleatoriamente selecionada entre a população que compõe as inúmeras fan pages dedicadas à Rita Lee. A minha escolha de fanpages Rita Lee tem relação com assuntos pessoais desafiadores, que enfrentei e que encontrei conforto na obra da artista. A partir de então, comecei a descobrir o incandescente universo digital do qual ela é o sol.

Historicamente, antes da internet, existiam alguns fã-clubes reverenciando a estrela. O de maior agilidade e comprometimento foi o fã-clube Ovelha Negra capitaneado por jovens admiradores, que com o consentimento de Rita/Roberto atuavam numa sala no centro de São Paulo, cedida pelo casal. Eles mantinham os fãs informados através de um newsletter “Fanzine”, que era datilografada nas horas vagas na máquina de escrever do escritório onde Mauricio Pio Ruella trabalhava. Ele, Vilma Gusmão e Rubens Lucena eram os “ovelheiros” fiéis e cheios de energia nesta empreitada. Maurício faz parte do time da família Lee/Carvalho há 28 anos, orgulhosamente trabalha como secretário no setor financeiro.

Aparentemente Ovelha Negra dissolveu-se com a chegada da página www.ritalee.com, que tinha a mesma finalidade e mais rapidez na comunicação com os fãs. Mas o sonho não acabou. Na realidade, só aumentou, na mesma velocidade da chegada das redes sociais.

Existem duas vertentes do mundo Rita Lee nas nuvens. Uma é a própria página Rita Lee oficial com 1,4 milhão de fãs. A outra é a de Roberto de Carvalho, com 399 mil seguidores. Os satélites, formados por fanpages que giram em torno dos luminares, formam um sistema de comunicação com o objetivo de trazer “felicidade/satisfação” para quem faz parte desta comunidade virtual; tanto como administrador da página quanto como seguidor.  Cada um desses satélites tem uma definição, característica e personalidade.

Por exemplo, o ArquivoRitaLee criado durante a pandemia pelo arquiteto Eduardo de Carvalho é um satélite acervo. Tem uma presença constante nas redes, postando fatos e fotos relacionados com Rita Lee. Ele é elegante e cordial em responder a todos os seguidores que buscam informação.

A parte transatlântica internacional fica a cargo de dois satélites intercontinentais. Um no Canadá, outro em Portugal. Rita Lee Canadá e sua parceira RitaLee_fa são duas fãs inveteradas, e inteligentes. Sabendo que juntas são mais fortes criaram uma parceria no hemisfério norte.  Elas trocam posts e estão em contato constante. Agatha Petite Gatita, advogada brasileira/canadense de 40 anos que idolatra Rita desde os cinco anos, administra a fanpage RitaLeeCanada e a portuguesa ZizaSharedthis, 29, é a responsável pela ritaLee_fa. Ziza teve uma epifania quando numa crise, sua psicanalista enviou o e-mail que terminava dizendo: “… diga não  às drogas mas seja educada diga não obrigada. Rita Lee”.  A partir daquela mensagem transformadora, a presença de Rita através da sua obra, fazem parte constante da sua vida.

O satélite academia fica a cargo da blogueira, escritora, mestra e doutora em literatura comparada Norma Lima uma fã aficionada desde pequena, e seríssima no seu propósito: perpetuar a obra de Rita Lee no mundo acadêmico. Escreveu o livro Ditadura no Brasil e Censura nas Canções de Rita Lee, do qual foi até extraído um texto para a prova da Unicamp. Norma participa de palestras, entrevistas, e é professora orientadora de alunos de doutorado defendendo teses relacionadas com Rita Lee. A fanpage ritalee_fc administrada por ela posta material inédito e assuntos que nenhuma outra possui, já que conviveu com Rita por mais de dez anos, inclusive ajudando sua musa a engatinhar no início do mundo do Twitter.

Novos satélites estão aparecendo, como no caso do Rita.Lyrics que migrou do TikTok (onde teve 200 mil visualizações) para o Instagram. O seu criador é Jacleiville Arvelino, 22, estudante de filosofia na universidade de Alagoas, onde mora. Conheceu o trabalho de Rita através de músicas nas novelas e a identificação foi imediata: “Ela foi livre e me inspira ser quem eu sou” disse. Seus posts são inusitados, como no que ele aparece mostrando o disco Build Up, convidando os seguidores para cozinhar seguindo a receita da música Macarrão com Linguiça e Pimentão”. Informativo e hilário!

No satélite sweet está a fanpage Rita.lindaa administrada pela jornalista gaúcha Irene Bof. Entre fotos inéditas e informações valiosas, ela posta o folhetim O Amor de Rita e Roberto, agora no capítulo 148. São textos água com açúcar gostosos, perfeitos para aqueles que vivem a fantasia de encontrar um amor como o de R&R.

Ritaleezese é o satélite cool. Uma galeria de arte com todas as fotos da musa postadas em preto e branco. Muita criatividade. Faz bem aos olhos. Flerteleetal é um satélite comercial administrado pela Universal Music Store. Posta bons vídeos, além de sorteios e merchandises.

Em janeiro de 2024 foi criada a fanpage rita_lee_decarvalho como digital creator. Não há informação nem dados específicos neste satélite IA.  Rita Lee parece ter aterrissado num mundo paralelo artificial!

Neste universo Rita Lee digital brilham ainda estrelas de primeira grandeza como a estrela azul do Phantom – alter-ego de Guilherme Samora – escritor, jornalista, roteirista, fotógrafo, editor e fã número 1 de Rita. E, a do artista Guilherme Francine, mestre em arte digital. Ele fez inúmeros trabalhos como art designer para Rita. E o mais importante: trocou figurinhas direto com a rainha, quando a ensinou a colorir digitalmente a foto da capa do livro Rita Lee Outra Biografia.

Para finalizar, usando o sentido conotativo de Roland Barthes dentro deste segmento do universo de luminares e satélites, a nuvem Rita Lee é uma retribuição a tudo o que ela representa para cada um desses indivíduos que devotam tempo e amor nesta troca e recebem de volta satisfação e alegria dos seguidores. Corroborando, assim, a tese que uma das chaves para abrir a porta da felicidade está em pertencer a uma comunidade.

As respostas para as perguntas iniciais são evidentes de acordo com a pesquisa: não existe perda de tempo e a satisfação é real. E rebato aos acadêmicos com mais uma questão: o que é o tempo em relação ao espaço de viver em harmonia e sintonia numa nuvem de amor? 

E concluo: Rita Lee continua fazendo um monte de gente feliz!

Nenhum pensamento

  1. Parabéns pela linda e excelente matéria, Maria Duhá-Klinger. Agradeço a atenção a mim dispensada. Usando um mote de Rita e Roberto: Sorte, Saúde, Sucesso. Sempre!

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