Nu no Hotel Quitandinha

Maria Duhá-Klinger lembra um dos insólitos momentos que teve ao lado do seu amigo, o inimitável Paulo César Pereio

Foto: reprodução do filme Vai Trabalhar Vagabundo, de Hugo Carvana

Como um laboratório, nos anos 50, o Teatro de Equipe de Porto Alegre era um celeiro de cultura para jovens dedicados com afinco e talento à arte da interpretação. No início da década de 60, muitos destes atores, diretores e autores gaúchos mudaram-se para o Rio. Nesta leva estavam Luiz Carlos Maciel, Paulo José, Lillian Lemmertz e Paulo César Pereio.

Conheci Pereio nesta época. Ele era a antítese dos seus companheiros gaúchos, no sentido incontido do seu temperamento. Andava sempre meio desligado na aparência pessoal, mas tinha um charme tão grande e um poder de sedução tão intenso, que sempre esteve envolvido com belas atrizes e damas da sociedade. As grã-finas achavam chique ter o Pereio como convidado, mas as consequências da sua presença sempre traziam algum desconforto. Como ele mesmo disse numa entrevista – e mais tarde repetiu no programa do Jô Soares – “Já fui expulso de surubas pelo meu comportamento”.

Um ser humano único, hilário e verdadeiro. Amigo dos amigos, engraçado. Era dono de uma inteligência vivaz. Um revolucionário convicto, não respeitava nada nem ninguém.

Tinha com ele intrinsecamente tudo o que torna uma pessoa um mal profissional: quase sempre chegava tarde nas filmagens e muitas vezes aparecia sem saber o texto e, mais ainda, algumas vezes não aparecia e nem mandava avisar à produção. Isto quando não pintava totalmente sob efeitos etílicos dando broncas homéricas com sua voz de trovão. Mas seu talento era tão grande, e seu poder histriônico de transformação tamanho que sempre trabalhou com os grandes cineastas brasileiros e foi consagrado em vários festivais de cinema. Onde ele atuava, não importando o tamanho do papel, era uma presença marcante.

Era respeitado pela sua voz alta com um tom possante – foi considerado o melhor locutor do Brasil – tonitruando palavras de baixíssimo calão, sempre no final de uma frase usava “porra” como pontuação. Foi o favorito na publicidade nas três últimas décadas do século passado. Só dava a narração de Pereio nos comerciais. Incongruentemente era um trabalhador incansável apesar de sua atitude anárquica e caótica em relação à vida.

Seu trabalho mais marcante, e que mais o representou, foi na televisão: o programa Sem Frescura no Canal Brasil dirigido por Lara Velho, sua filha com a atriz Neila Tavares. Do programa também participaram seus filhos, João e Tomas, do seu relacionamento com Cissa Guimaraes. O programa era uma exposição do seu criador na totalidade do seu ser: desbocado, livre e escatológico. Segmentos como “Eu larguei da punheta” e “O coador de peidos” eram parte deste mundo televisivo surreal. Assim era ele, um desafiador que desafinava o coro dos contentes.

As pessoas que tiveram algum contato pessoal com o Pereio, sem exceção, têm alguma história para contar. A minha é a seguinte:

Durante uma boa época nos anos 70 um grupo de artistas frequentadores do Antonio’s o local icônico da zona sul do Rio naquele tempo, reunia-se para conversas intelectuais e que tais, na famosa varanda. Era um delírio regado a uísque e cachaça. Um dia, durante um desses encontros, Pereio nos convidou a todos que estavam na mesa para subirmos até Petrópolis onde ia receber um prêmio no festival de cinema. Ele tinha uma suíte no Hotel Quitandinha. Só que enquanto tomavam a saideira, e mais um “for the road”, eu precavidamente, fui à farmácia do lado do Antonio’s e comprei pasta e escova de dentes para mim. E lá fomos nós! Ao chegarmos no hotel, onde ficamos todos amontoados, Pereio tira a roupa e aparece pelado na saleta com a minha escova de dentes, que tinha encontrado, já na sua boca.

E eu fiquei de boca aberta! Uma visão dantesca!

Vai com tudo, irmão, até sempre.

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