A última estrada

Maria Duhá-Klinger lembra o amigo Joel Macedo, com quem conviveu por quase seis décadas e com quem muito aprendeu sobre muitos temas

Para ser lido ao som de Bob Dylan em Like A Rolling Stone

Conheci Joel Macedo em 1966 na redação da Última Hora, de Samuel Wainer, no Rio de Janeiro.  Recém-chegada de Porto Alegre, onde tinha trancado a matrícula no curso de jornalismo na PUC, eu estava tentando uma vaga na imprensa carioca. Entrei como estagiária. Joel foi meu primeiro amigo no efervescente jornal que tinha o gaúcho Tarso de Castro – que três anos depois seria um dos criadores do Pasquim – como estrela da redação.

Joel era um jornalista que discutia política, cinema, amava filosofia e a nouvelle vague francesa. Como cineasta, consagrou-se ao receber o prêmio do II Festival de Cinema Amador do Jornal do Brasil com o filme Quarto Movimento. Aprendi com ele mais sobre jornalismo do que na faculdade. Ele me ensinou o que era ser carioca, com todas as malandragens e manhas incluídas no pacote. Com ele aprendi a ser local. Era muito encorajador para uma foca como eu ter o apoio de um intelectual de vanguarda.  

O estágio durou pouco, mas a amizade ficou para sempre. Joel era um taurino com uma força e determinação capaz de vencer qualquer obstáculo para conquistar o seu objetivo. Depois da Última Hora, ele trabalhou ainda no Jornal do Brasil e no O Globo, para depois juntar-se aos primeiros jornais da imprensa alternativa que começavam a pipocar no Rio.

Bem-nascido, oriundo de uma família da zona sul do Rio, Joel tinha a classe de um lorde e a abertura mental e disposição para conviver com um morador da favela. Ele lidava com todas as pessoas de todas as camadas sociais da mesma maneira. Nunca o vi fazendo qualquer tipo de discriminação. Era um ser livre e independente. Nunca se ajustava às normas sociais. Detestava abertamente o establishment. Jovem e charmoso tinha muitas namoradas.  

A vida nos levou por caminhos diferentes que sempre se cruzavam. Quando ele foi para a Rolling Stone, a edição brasileira dirigida por Luiz Carlos Maciel, muitas vezes nos encontrávamos no Pier, nas dunas da Gal, e falávamos sobre a importância da militância. Também ficávamos ali horas infindáveis na areia, em transe, olhando o mar e falando sobre os astros, os planetas, interpretações astrológicas, as cartas do tarot e os significados de cada uma delas. Joel era um ser esotérico e místico por natureza.

Ele mesmo dizia que a carta que o definia naquela fase era a do Louco – a primeira (ou a última) carta do tarot, a que não tem número (todas as outras são numeradas). O Louco é a carta mais poderosa deste jogo milenar que auxilia no autoconhecimento. Como na interpretação desta carta, ele nunca pensou de forma linear e não conseguia expressar de forma racional o que sentia. Mas sabia que queria andar pelo mundo. Conhecer lugares, explorar a nova cultura que estava explodindo nos Estados Unidos e na Inglaterra, andar com jovens até a Índia. Sempre em busca de lugares exóticos à procura da iluminação esotérica e psicodélica. Ele era a epítome da geração rock’n’roll. Era um representante nato do Flower Power. 

Tão de repente quanto desapareceu do Pier, ele volta com uma tatuagem de um touro no braço que disse ter sido feita em Tânger, num acampamento cigano. Tatuagem era também o livro que havia escrito: Tatuagem – Memórias de uma Geração na Estrada. No texto, ele narra experiências e andanças pelo mundo: festivais de rock (seu gênero musical favorito), encontros com tribos, desencontros amorosos. Uma fábula hippie com sexo, drogas e rock ’n’roll muito bem contada. Hoje o livro que teve o texto revisado e acrescentado pelo autor é considerado um clássico da literatura da contracultura brasileira.

No lançamento do livro, ele conheceu Luciana Castello Branco, filha do Castelinho, principal colunista político do Jornal do Brasil. No mesmo dia, começou um romance. Logo depois, eles tiveram a primeira filha, Julia, da qual tenho o maior orgulho de ser a madrinha. Joel e Luciana são meus compadres. Um pouco mais tarde, eles tiveram um filho homem, Genaro Macedo. Creio que o nome foi uma alusão ao índio-guru, personagem místico de Carlos Castañeda de quem Joel era um seguidor fiel. Mais tarde, ele teve com sua companheira Jussara mais dois filhos, Suzana e Daniel. 

Tatuagem não tinha distribuição convencional, era marginal. Joel transformou-se numa celebridade na zona sul. Vendia o livro porta a porta. Ele representava tudo o que os hippies almejavam: ter a cabeça feita e fazer as cabeça dos outros. 

As mudanças eram rápidas como os tempos que vivíamos. Os acontecimentos o levaram para outras paradas e outras crenças religiosas. Tornou-se um fervoroso cristão evangélico e passou a negar todos os conhecimentos esotéricos que tínhamos amealhados no auge da contracultura. As drogas deixaram de ser condutoras de viagens de autoconhecimento e agora eram pesadas e destruidoras.  Joel refutou a todas elas e mergulhou de cabeça na sua fé. Foi estudar psicologia. Diplomou-se na faculdade e foi parar no Amazonas como evangelizador.

Em 1992, ele me surpreendeu ao chegar em Nova York para ser um dos representantes do Brasil na ONU durante os estudos preliminares a ECO 92. Tinha voltado da Amazônia como um ambientalista e um ativista do meio ambiente. Neste período de dois meses que ele passou em Nova York nossa velha amizade floresceu. Ele estava repensando seriamente a sua posição dogmática de cristão evangélico e – como nos tempos do Pier – passeávamos por museus e locais novaiorquinos conversando sobre as cartas mágicas do tarot, astrologia, o caminho do conhecimento de Castañeda, a bíblia, o budismo e, como sempre, o rock’n’roll, sua paixão.

Com a virada do século, a chama de escritor começou a vibrar intensamente na sua vida. Antes da pandemia e depois de ter lançado os livros Albatroz – O Encontro das Tribos na Califórnia e Despertador – Espiritualidade dos Anos 70, ele me procurou para que eu pudesse ajudá-lo na pesquisa do seu novo projeto: um romance da era Kennedy. Ele sabia de minha admiração por Bob Dylan e estava interessado na minha coleção de livros sobre o assunto.

Numa das visitas da minha afilhada, mandei a ele os livros que achava essenciais para a sua pesquisa. Nosso contato ficou assíduo. Bob Dylan, Joan Baez, Suzy Rotolo eram os nossos assuntos favoritos. Fui nomeada pesquisadora nos créditos do livro. 

Nunca nos perdemos. As redes sociais nos aproximavam muito mais. Contato diário. No Facebook o jornalista falava de acontecimentos políticos atuais. O teólogo, mestre religioso, fazia citações da bíblia. E o amante do rock incitava os leitores a votarem nas melhores bandas, no melhor guitarrista, ultimamente andava fascinado pela “slide guitar” (uma técnica de tocar blues com o dedo anular envolvido por um cilindro de metal para modificar o som). Mas nunca mencionava a sua solidão. 

Apesar de sua presença nas redes sociais, ele mesmo tinha me confessado que tinha se transformado na carta do Ermitão, que simboliza isolamento e afastamento. O eremita isola-se para descobrir o conhecimento que o rodeia, na natureza, por exemplo. E também para se autoconhecer. Morava na Zona Norte do Rio, em Paracambi, a última parada do trem da Central. Vivia com oito cachorros, na Rua da Tranquilidade.

Julia, uma filha exemplar, sempre preocupada com a saúde do pai que se deteriorava e com a insalubridade do local, tentou em vão levá-lo para junto dela. Taurinamente, ele resistiu. Não fez nenhum tratamento médico, algo absolutamente necessário para a sua condição física.

Ele já havia começado os preparativos para fazer a grande viagem de volta e nos deixa um livro inédito: Na Rota da Alquimia – Um Acesso à Via Espiritual.

Desta vez a viagem não é mais como andarilho. O mestre criou asas infinitas e voou. 

Boa viagem! Voa alto brother! Paz! Luz! Amor! 

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