Maria Duhá-Klinger esteve no mais recente show de Bob Dylan e conta como o espetáculo a reconectou com uma história de mais de 60 anos
Para ser lido ao som de Bob Dyaln em Rough and Rowdy Ways

No início da década de 60 era difícil que eu me adaptasse aos padrões de comportamento vigentes considerados “normais” para uma moça de família em Porto Alegre. Quando ainda estudava no Colégio Bom Conselho, eu considerava a minha vida chata demais. As minhas escapadas daquela mesmice se davam pela descoberta de novos poetas, de novos compositores.
Foi então nesta época que uma pequena loja de discos foi inaugurada na Rua 24 de Outubro, quase esquina com a Dr. Timóteo. Os donos eram Flávio e Renata, um casalzinho paulista antenado. Eles tinham a intenção de trazer a cultura da cidade grande para Porto Alegre. Não deu certo e loja fechou pouco depois. Mas o que aprendi ficou comigo para sempre.
Lá eu descobri um artista novo que tinha acabado de surgir nos Estados Unidos. O nome dele era Bob Dylan, autor de Blowing in the Wind. Era 1964 e ele cantava com uma voz fanhosa e com um sotaque diferente para os meus ouvidos, até então acostumados a Frank Sinatra. A misteriosa canção falava de liberdade, de combate ao preconceito, e também de bombas, de guerra. Tratava ainda da finitude da vida e condenava a passividade humana, a indiferença diante de problemas sociais. Minha veneração por Dylan me transformou em um ET diante das minhas colegas na escola. E, consequentemente, a minha distância com elas tornou-se imensurável. Adeus Porto Alegre!
O encanto pelo meu ídolo cresceu. Descobri novas composições suas e no processo encontrei Joan Baez, então musa de Bob. Ela já consagrada como folksinger o apresentou para o mundo. O ativismo contra um governo poderoso, que eles denunciavam abertamente era incontrolável e invejável. Enquanto eu e meus amigos no Rio de Janeiro não tínhamos a coragem e o poder de ir contra uma ditadura.
CORTA!
Broward Arts and Performance Center – Fort Lauderdale. Março de 2024
A entrada do show da turnê Never Ending, de Bob Dylan para o lançamento do álbum Rough and Rowdy Ways (numa tradução livre Maneiras Ásperas e Turbulentas), é organizada e caótica ao mesmo tempo. Organizada porque tem várias filas para tudo. Caótica porque os produtores avisam aos gritos que não aceitam ingressos no telefone, só no papel. Quase uma rebelião dos que não tinham o ingresso impresso.
E, como tínhamos sido avisados, não era permitido telefones no recinto. Os aparelhos ficam depositados num saquinho padrão com um número, que são devolvidos após o espetáculo. Sabendo disso deixei meu telefone no carro. As filas para depositar os telefones eram imensas. Ao ser revistada fiquei surpresa quando confiscaram meu binóculo. Tive que entrar na fila do binóculo para conseguir o número do deposito. Assim como a do binóculo, tinha fila para depositar câmeras fotográficas, gravadores, e qualquer outro aparelho que pudesse registrar o evento. Paranoia total!
Dentro do teatro o palco está escuro. Um breu. Exatamente na hora marcada as luzes se acendem e Dylan aparece já sentado no piano cercado por quatro músicos: dois guitarristas, um baixo e uma bateria. É aplaudido de pé. Uma ovação reverencial. O artista finge que nada está acontecendo, não agradece nem diz o clássico “good evening” antes de iniciar o espetáculo.
Os músicos vestem ternos pretos com camisa preta, e a indumentária da nossa estrela além de preta tem uns bordados coloridos nos ombros que se sobressaem quando ele se movimenta atrás do piano.
O cenário é de uma sobriedade franciscana. Acostumada aos megashows com telões, luzes, cores e toda parafernália que a tecnologia pode oferecer é estranho ver um show em que o palco tem caixas de instrumentos em desalinho no fundo , nenhuma luz especial e apenas o talento de quem está no palco. E que talento!
O teatro tem 2700 lugares – um concerto intimista que está “sold out” há vários meses. Pela aparência, a plateia é de meia idade: 50 plus. Surpreendentemente todos cantam em uníssono durante o espetáculo, que não apresenta nenhum hit antigo na setlist.
O espetáculo começa com a autobiográfica I Contain Multitudes, título que ele tirou de um poema de Walt Whitman. Dylan interpreta a canção como se estivesse num serviço religioso, entoando apenas o final de cada estrofe. No final, enquanto a plateia levanta-se aplaudindo freneticamente, o artista não agradece e continua na música seguinte… E assim vai até o final do concerto. Nenhum agradecimento. É como se o público não estivesse presente. Não interagir com a plateia é uma das marcas registradas da sua personalidade.
A balada Key West, uma homenagem ao compositor, Jimmy Buffet que faleceu recentemente, leva a grande maioria às lágrimas: “Key West is the place to be, if you’re looking for immortality”.
Dylan não sai do piano, não toca guitarra e nem a sua famosa harmônica. Mas, os excelentes músicos compensam por esta falta. Sonzão!
Depois de uma hora e meia de música, o grand finale com o blues Crossing the Rubicon é petrificante e fica fácil entender por que ele foi agraciado com o Prêmio Nobel da literatura.
Foi uma experiência inesquecível. Aos 82 anos a força da mensagem de Dylan está numa curva ascendente nunca vista. Dos Estados Unidos parte para a Ásia e, na volta, dia 20 de setembro, ele se apresenta em Connecticut com a turnê Never Ending. Dessa vez vai ter como convidado especial Willie Nelson o cantor country de 91 anos. Esta turma me representa. Já reservei meu lugar…
