Os caminhos cruzados de Vandré e Simonal

O que aproxima a trajetória de dois artistas que sempre andaram em campos opostos?

Para ser lido ao som de Geraldo Vandré em Pra não Dizer que não Falei de Flores e Wilson Simonal em Nem vem que não tem

Os tempos sombrios da ditadura foram capazes de turvar até as fronteiras que se encontravam em campos opostos. Talvez o mais simbólico entre estes limites tenha sido o tênue fio que uniu Geraldo Vandré a Wilson Simonal.

De um lado, um cantador nordestino, seco e enragé, que encontrou em seu violão e na poesia uma maneira de enfrentar a ditadura e qualquer espécie de poder. De outro, um cantor negro e carioca, filho de uma empregada doméstica e de um radiotécnico, que, com um jeito malicioso de interpretar, injetou suingue e modificou completamente a música brasileira. Ambos chegaram ao ápice. Ambos foram destruídos.

O primeiro, nascido Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, em João Pessoa, Paraíba, em setembro de 1935, surgiu para o grande público em 1966, quando sua Disparada, parceria com Theo de Barros e interpretada por Jair Rodrigues, empatou em primeiro lugar com A Banda, de Chico Buarque.

Disparada era uma música diferente de quase tudo que vinha sendo ouvido até então. Ao fazer uma comparação entre o abuso das classes sociais pobres pelas mais ricas com a exploração das boiadas pelos boiadeiros, Vandré inaugurava uma vertente artística com capacidade de metaforizar a situação de desigualdade no Brasil. À poesia árida, quase agreste, dos versos de Vandré se juntava a interpretação vigorosa de Jair Rodrigues, que – dando uma dimensão cênica ainda maior – se fez acompanhar no palco por uma queixada de burro usada como instrumento de percussão pelo músico Airto Moreira.

O impacto visual e sonoro foi instantâneo. A atenção da censura e dos militares, também.

Em contraposição ao engajamento político de Vandré estava o descompromisso de Simonal. Nascido Wilson Simonal de Castro, em fevereiro de 1938, no Rio de Janeiro, ele, ao completar 18 anos, sentou praça no 8º Grupo de Artilharia de Costa Motorizado. Não brilhou com a farda e o que restou da temporada castrense acabou não tendo nada a ver com qualquer espécie de habilidade bélica: Simonal se destacou como chefe da torcida do time do quartel. Foi sua primeira experiência em comandar plateias.

Já sua formação musical se deu no caldeirão sonoro criado por Carlos Imperial no seu Clube do Rock, onde estreou. A seguir, ele iria aperfeiçoar seu canto e sua performance em noites de bossa nova no Beco das Garrafas até, como quase todos de sua geração, se aproximar dos festivais da canção e defender Rio do Meu Amor, de Billy Blanco, e Cada vez mais Rio, de Luís Carlos Vinhas e Ronaldo Bôscoli, no I Festival da Música Popular Brasileira, da TV Excelsior.

Seria também quase nessa época que Simonal e Vandré teriam pela primeira vez suas trajetórias cruzadas. Os dois interpretariam a música Sonho de Carnaval, composição de Chico Buarque. Vandré primeiro, defendendo-a também no I Festival da Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, e Simonal, logo depois, incluindo-a no repertório do disco S’imbora.

No mesmo ano de 1966 em que Vandré começava a afrontar a ditadura, Simonal estava mais alienado do que nunca. Nada em sua música fazia referência à política. Seus temas preferidos era um modelo não muito claro que ficava no meio termo entre uma cantada ingênua e uma cafajestagem simpática. Nos discos que gravou – e que ainda viria a gravar – para a EMI-Odeon na década de 60, Simonal faria uma síntese de muitas das vertentes musicais brasileiras, como o samba, o baião, a cantiga e a bossa nova, mesclando-os com o rock, o cha-cha-cha e o bolero. Foi ainda o artista nacional que mais se aproximou da figura do entertainer. O showman completo, capaz de cantar, dançar, contar piadas, fazer imitações e se dividir entre vários instrumentos. No planeta, só havia um exemplo a ser comparado: Sammy Davis Jr.

Porém, o marrento e mascarado, que tinha um ego maior do que o Maracanãzinho (onde, em julho de 1969, protagonizaria sua maior performance regendo uma plateia de mais de 20 mil pessoas), musicalmente deixava transparecer sua fragilidade, dedicando tempo e energia demais a brincadeiras e pilantragens como Meu Limão, Meu Limoeiro e Mamãe Passou Açúcar ni Mim.

O verdadeiro Simonal, da voz poderosa, da divisão rítmica perfeita (ou de onde você pensa que Elis tirou os jogos vocais de Águas de Março?), do suingue imbatível, do acesso ao falsete e a um scat jazzístico de entortar se traduz melhor em outras interpretações, muitas delas pouco conhecidas. Exemplos: o Simonal bossanovista (de Sabe Você), o da dor-de-cotovelo (de Sozinha, de Lupicinio), o dos standards americanos (de The Shadow of Your Smile, num impecável dueto com Sarah Vaughan), o dos afrossambas (de Consolação ou então Nanã), o do sambalanço (em País Tropical) e até o Simonal engajado, de Tributo a Martin Luther King, composição de sua autoria lançada um ano antes da morte do líder do movimento negro americano.

Tudo isso também chamava a atenção do público – e igualmente dos militares.

Entre o final dos anos 60 e o começo da nova década, Vandré e Simonal entrariam em desgraça por motivos diferentes. Em 1968, Vandré daria uma nova cutucada no regime ao participar do III Festival Internacional da Canção da TV Globo com Pra não Dizer que não Falei de Flores, canção ainda mais virulenta do que Disparada e que, de forma instantânea, se tornou um hino de resistência do movimento estudantil que fazia oposição à ditadura durante o governo militar. O refrão (“Vem, vamos embora/Que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora/Não espera acontecer”) foi visto como provocador e interpretado pelos militares como uma convocação à luta armada.

Apesar do grande apelo popular, desta vez Vandré não chegou ao topo. Walter Clark, diretor da Globo, contaria anos mais tarde em sua autobiografia que recebeu do Alto Comando do 1.º Exército a orientação de que a música não deveria ganhar o festival. O que se confirmou. Pra não Dizer que não Falei de Flores, ou Caminhando, como acabou se tornando conhecida, ficou em segundo lugar, perdendo para Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim. Porém, junto ao público que lotava o Maracanãzinho, o resultado foi surpreendente: a vice-campeã foi ovacionada e a vencedora, vaiada. Vandré saiu do palco consagrado.

Seu apogeu duraria pouco e em 13 de dezembro de 1968, data do AI-5, ele realizou seu último show em um palco brasileiro, em Anápolis. A seguir, por conta própria, partiu para o exílio, viajando pelo Chile, Uruguai e países da Europa. Só voltaria ao Brasil em 1973. E jamais repetiria o sucesso anterior.

Já Simonal teria seu inferno pessoal a partir de agosto de 1971. Onze meses antes, o cantor começou a desconfiar que as contas da sua empresa, a Simonal Produções Artísticas, não estavam batendo. Uma das pessoas chamadas para verificar a situação foi o contador paulista Raphael Viviani, a quem caberia organizar o balanço da empresa e estancar os gastos. Viviani se assustou com o que viu, mas seguiu trabalhando. Em paralelo, Simonal entrou em atrito com os dois principais diretores da TV Globo, Walter Clark e Boni, e – para piorar – tornou pública a briga em uma entrevista ao programa de Flávio Cavalcanti, na Tupi. Resultado: Simonal passou a ser boicotado pela Globo.

Enquanto a auditoria avançava, Simonal se precipitou, desmontou a estrutura da própria empresa e rompeu com todo seu staff. Viviani, a parte mais frágil, foi demitido e, sem ter recebido nada, entrou com uma ação trabalhista contra Simonal, para receber as verbas indenizatórias.

Simonal ficou possesso e teve a pior ideia de sua vida: pediu a alguns conhecidos que atuavam como agentes do DOPS que dessem uma prensa em Viviani. Assim, dois policiais foram até a casa de Viviani no Opala do cantor, identificaram-se como “policiais do DOPS a serviço de Simonal” e levaram Viviani para a sede da Simonal Produções Artísticas exigindo que ele confessasse o desfalque. Como Viviani resistiu por quase uma hora, foi levado para a sede do DOPS e torturado. Acabou confessando o que não havia feito.

A ação dos “amigos” de Simonal tinha por base uma declaração assinada no próprio DOPS em que o cantor dizia que vinha recebendo ameaças telefônicas anônimas e que acreditava que esses ataques eram de autoria de Raphael Viviani. Apresentando-se no documento como “antigo colaborador do DOPS” e “divulgador do programa democrático do governo da República”, o artista encerrava seu registro oferecendo seu carro e seu motorista ao DOPS para que fizessem a diligência.

Tudo poderia permanecer encoberto não fosse o fato de a mulher de Viviani, desesperada por estar há mais de 20 horas sem notícias do marido, prestar queixa de sequestro. Para reforçar o seu relato, ela contou que Viviani foi levado por dois homens que foram a sua casa e se apresentaram como vinculados ao DOPS e a serviço de Wilson Simonal

As denúncias de torturas sofridas pelo ex-contador de Simonal, colocaram o intérprete num furacão de boatos e intrigas encerrando com uma rapidez impressionante a carreira do cantor. Simonal – dizia-se – era um dedo-duro.

Pelas próximas décadas, ambos – cada qual com sua cruz – foram banidos da história da música brasileira. Também, da mesma forma, os dois se alternaram entre um círculo de silêncio que se formou ao redor de cada um deles e longos períodos de ostracismo. Simonal ainda fez esforço para ser reabilitado, o que nunca conseguiu.

Uma última e melancólica coda iria os unir pela última vez. No primeiro trimestre de 2000, uma das derradeiras visitas que Wilson Simonal recebeu – quando estava internado no hospital Sírio-Libanês com cirrose hepática causada por anos de alcoolismo – foi a de Geraldo Vandré. O que o militante engajado da resistência e o alienado entertainer da pilantragem conversaram ficou reduzido ao que está documentado no livro Nem Vem Que Não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal, de Ricardo Alexandre. Ali o relato é de que os dois ex-colegas da TV Record ainda planejavam montar um show em conjunto, no Parque Ibirapuera, inclusive com a ideia grandiosa de ter a participação de orquestra e coral. O projeto – tão insólito quanto absurdo – se mostraria ainda inexequível. Artisticamente, os dois estavam há anos fora de qualquer circuito. Pessoalmente, Vandré – que permanece vivo em 2024, com quase 89 anos – só havia feito shows esparsos nas últimas cinco décadas. Simonal nem tempo teria para fazer outros planos. Morreria no dia 25 de junho. Tinha 62 anos.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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