Antônio Carlos Miguel é abduzido pelo novo de Breno Ruiz
Para ler ao som de Breno Ruiz, “Semaforica”

Há quem diga que a MPB morreu. Argumentam que não vale apelar para os octogenários (ou quase lá) que continuam a fazer. Ou, misturando mortos e vivos, “não surgiu mais nenhum Jobim, Cartola, Dona Ivone, Chico, Caetano, Milton, Joyce, Sueli, Gil, Donato, Gal, etc”.
Mas, há muitos, sim, fazendo grande, atemporal e já clássica canção popular brasileira. Dá para listar gente sem fim, nos seus 20 e bastante anos, ou 30 e pouco e muito. Mesmo que estejam longe da grande mérdia (direitos desse neologismo para o saudoso roqueiro Ezequiel Neves), fora dos (em bom português) line up dos grandes e médios e medíocres festivais. Gente como Breno Ruiz, que volta com seu segundo disco solo, Pequenas impressões sobre o caos.
Cumprindo missão quase impossível, é tão bom quanto sua surpreendente estreia em 2016 com Cantilenas brasileiras. “Mas, daí não vale, aquele foi álbum todo em parceria com Paulo César Pinheiro”, diria alguma bruxa, como a de “Quase nada”, a canção de abertura, na qual um compositor popular brasileiro no divã de seu psiquiatra desabafa sobre os momentos de depressão daqueles que, em tik tok times, insistem em ser compositor e cantor e pianista popular brasileiro. Gente que se mira no exemplo de Jobim, “que venceu a bruxa/ brindando com Vinicius/ cantando com Miúcha/ gravando com Sinatra”.

Versos que respondem uma pergunta que sempre vem quando dizem que, ok! ok! ok!, a MPB pode não ter morrido, mas, é inviável mercadologicamente em tempos de sertanejo-pisero-trap-funk-axé-pagode e outros bichos. Versos que, nas 13 faixas de Pequenas impressões sobre o caos, saem das mãos e mente de Roberto Didio, o cara que, entre outras coisas, prova que Cantilenas brasileiras não brilhou tão forte “apenas” graças ao aval e as letras de PCP.
Há quem insista, dizendo que, na MPB, já fizeram tudo Jobim, Edu, Dorival, Paulinho, Maysa, Cavaquinho, Lyra, Marcos, Melodia, Djavan… Mas, esse Pequenas impressões sobre o caos que chegou às plataformas no dia de Iemanjá é prova de que não há limite para a invenção.
Entre Cantilenas… e Pequenas impressões… Ruiz fez alguns discos coletivos ou em dupla também marcantes, mas, este segundo, gerado em plena pandemia, tem o sabor de superação. Voz e piano de Breno, letras de Didio e, em dez das 13, o violão de João Camareiro (que, nos últimos tempos, está na banda de Bethânia). Pontuais participações atravessam e colorem ainda mais o disco. Coros engrossam o coro em três. Guinga canta e “violãoneia” em “Na moda”, modinha que em sua introdução acena para “Senhorinha”, o clássico instantâneo do ex-dentista (com letra de PC Pinheiro). Como que uma sobrinha neta daquela, agora indo de patins para a orla, de onde de longe olha a senzala (ou a favela). Renato Braz, que desde os 1990 prova que a MPB existe e brilha, junta sua voz à de Breno em “Desacalanta” e faz a percussão afro em “Campos Elísios”.
À guisa de paralelo, o Jobim citado em “Quase nada” é uma referência musical para entrar no universo de Ruiz. Mas, o Jobim de valsas e modinhas e baladas ou blues – neste caso, mais pela letra de “Médios e graves”, o retrato de uma “Lígia” decadente, fã de Miami by Romero Brito. “Diana” é outra que pode remeter a ligias, angelas, anas luizas jobinianas. Na letra que se sustenta como poema, despida de melodia, a palavra “republicana” pode parecer incantável, mas, como Breno cantor e compositor mostra, escandindo as sílabas soa bem… re-pu-bli-caaaa-naaaa.
“Semarofica” poderia ser definida como um “Sinal fechado” atualizado para os dias hoje, nos quais balas são tanto guloseimas, diabéticas e de procedência duvidosa, vendidas naquele breve instante entre o vermelho e verde, ou perdidas e letais quando encontram um alvo. Personagens filmados através da canção também atualizam os pivetes já cantados por Chico Buarque.
Em “Tempestade”, podemos lembrar de Dorival em sua veia impressionista à la Ravel e Debussy, esta com o piano de Cristóvão Bastos e o violão e a voz de Miguel Rabello. As letras mais politizadas, de cunho social, “Camelódromo” e “Paus de arara”, têm um quê de documentário segundo câmera na mão de um Eduardo Coutinho. Na primeira, o narrador é um camelô, que, corre para salvar seu ganha-pão quando chega o rapa. A segunda volta a jogar com os diferentes sentidos de certas palavras, tanto o ônibus improvisado em carroceria de caminhão trazendo migrantes internos para o Sudeste falsa maravilha quanto a máquina de tortura usada nos porões da repressão.
E por aí seguem as Pequenas impressões sobre o caos, contos do cotidiano contemporâneo, ou curtas, com precisos cortes que captam a realidade em movimento.
PS: Canções que não comentei, como “Balé Malê” e “Campos Elísios”, também já disputam lugar entre as… 13 mais de Pequenas impressões sobre o caos, enquanto “Diana” é a mais bela de todos os tempos. Ouça “Diana”!
