Antônio Carlos Miguel entra em ritmo de pré carnaval e dança para não dançar
A chuva forte em São Paulo no fim da tarde de ontem, dia de Iemanjá, provoca um atraso geral nos voos que saem ou descem em Congonhas. Nas telas de aviso do aeroporto de Florianópolis, os vinte minutos de espera viram 30, uma hora, até, finalmente, no portão de embarque, passageiros serem avisados que a conexão carioca (e para outras cidades) dançara. As opções oferecidas são esperar mais e embarcar no avião que, àquela altura, ainda esperava autorização para sair do solo, para depois pernoitar em hotel nos arredores de Congonhas, ou dormir em Floripa e pegar no início da manhã um voo direto para o Rio.

Após checar que a companhia não banca o transporte ida e volta à casa (onde ficaram cunhada e irmão e sobrinho e irmã Iara & Paulo & Jorge & Sônia), não preciso pensar muito para decidir. E fazer do limão uma limonada. Um passeio noturno pelo velho centro da cidade natal, aonde não punha os pés desde a pandemia, foi a boa. Afinal, após o compromisso na manhã de 30 de janeiro no campus da UFSC, o descerramento da placa em homenagem a Salim Miguel no dia de seu centenário, não saíra dos domínios de uma praia no norte da ilha.

Ao chegar ao hotel oferecido pela companhia aérea, percebo que está a dois minutos de caminhada da casa na Avenida Rio Branco onde viveu o avô José/Yussef. Deu lugar a um pequeno prédio nos anos 1980, mas, continua de pé a vizinha, onde vivia a família de Luiz Henrique, o cantor, violonista e compositor nascido em Tubarão que, no início dos 1960 foi para o Rio e depois os EUA com sua bossa nova catarinarioca.
“Finding a new friend”, de e com Luiz Henrique & Oscar Brown Jr. + Sivuca, Dom Um Romão e Don Payne

Na década de 1980, apresentado por meu pai, eu o conheci, poucos anos antes da morte precoce, em um acidente de carro. Em 1992, a menção a seu nome me transformou em amigo de infância de Liza Minelli. Escalado para entrevistar a cantora e atriz que desembarcara no Galeão para um temporada de shows, a conversa rolava morna até contar que não só nascera em Floripa como conhecera o cantor e violonista que trabalhara com ela nos anos 1960. Liza esqueceu o cansaço das nove horas do voo de Nova York e desandou a falar do quanto adorara a Floripa que conhecera nos braços de Luiz Henrique. Terminada a entrevista, perguntou-me quais eram os bares com boa música, para aproveitar a primeira noite que teria livre no Rio. Agora que o cineasta Zeca Pires prepara um documentário sobre a música de Santa Catarina, talvez o segmento dedicado a Luiz Henrique possa ter o depoimento luxuoso de Liza.

De volta à Floripa noturna nesse dia de Iemanjá em 2024, da Avenida Rio Branco cheia de memórias dobro à direita, em direção ao velho mercado, onde, como contara a funcionária do hotel, um bloco pré carnavalesco devia estar se dispersando. Na suave ladeira, passei pela escola primária pública onde estudamos até o fim de 1964, quando a família foi forçada a se mudar para o Rio. Vejo que, agora, faz parte da igreja luterana ao lado, onde tio Jorge se casou com Norma. Esta tia, como soube décadas depois, é prima de um amigo que K e eu já frequentávamos há uns três anos quando descobrimos sermos contraparentes. Até chegar ao mercado, cruzo com muitos foliões indo embora usando a camiseta do tal bloco, Berbigão. Mas, ainda encontro lotado o local e arredores, incluindo a Praça 15, totalmente cercada por tapumes para proteger os jardins e a lendária e centenária figueira.

É numa das ruas laterais da praça que ficava a Livraria Anita Garibaldi, depredada e queimada em 4 de abril de 1964 por apoiadores do golpe. Sônia e eu sempre passávamos por ela para pegar o ônibus de volta para casa na então distante Rua Graciliano Ramos, no bairro de Agronômica. Naquele dia, com o pai já preso na cadeia do 4º Batalhão da Polícia Militar de SC, nos deparamos com o monte de livros queimados na rua. Futuros corpos estendidos no chão, como na música de Bosco e Blanc, penso lembrando da fala do diretor da Editora da UFSC, Waldir Rampinelli, que, na manhã de terça, citou o poeta Heinrich Heine: algo como, “primeiro queimam livros, depois, seres humanos”. O sobrado no qual ficava a “Livraria do Salim” (e que já não era dele, o principal cliente), hoje abriga uma farmácia.

A peregrinação noturna e pré carnavalesca prossegue e chego ao casario ao lado da Catedral onde vô Miguel, como tantos imigrantes que começaram do zero, mascateando, teve seu último e mais próspero negócio, uma loja de tecidos. Enquanto registro a fachada, duas moças param e pedem que as fotografe também. Uma entrega o celular ao idoso desconhecido e trato de clicar, até que chegam dois rapazes e as desinibidas de Floripa correm para uma viela lateral anunciando aos berros aos amigos que vão se aliviar da cerveja acumulada. Afinal, é quase carnaval e o adorável aroma de cannabis também se espalha.

Atraído pelo som de uma batucada vou até a pequena praça atrás da Catedral e, depois, volto para a Praça 15. Na lateral de um prédio, percebo que, lá do alto, Cruz e Souza parece indiferente à folia. Será que manezinhas e manezinhos e turistas reconhecem o negro que, no fim do século 19, foi reverenciado como poeta simbolista? Ele que, após os anos de sucesso no Rio, acabou morrendo na pobreza.
A noite ainda é uma criança dizem as expressões de todos em volta, mas, decido fazer o caminho de volta. Os nomes das ruas são familiares sem que signifiquem muita coisa no trajeto. Posso seguir sem mapa ou GPS, o antigo centro histórico está gravado na memória e pouco mudou passadas seis décadas.

Enquanto a folia fica para trás, eu me pergunto como Santa Catarina pode ter se transformado no estado mais atrasado politicamente do Brasil, com quase 70% de eleitores daquele sujeito que não quero nomear. E, de certa forma, mesmo queimando livraria, a ilha que abriga a capital do estado sempre foi uma… ilha mais progressista. É isso que me parecem confirmar os muitos jovens e não tão jovens com quem cruzei brincando o pré carnaval como não houvesse amanhã. Barra limpa. Como cantaram Luiz Henrique e Oscar Brown Jr. no álbum de 1965 em que comemoraram o encontro num bar de Nova York.
“Barra limpa”, de e com Luiz Henrique & Oscar Brown Jr. + Sivuca, Dom Um Romão e Don Payne

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