Nascidos para Donatear

Antônio Carlos Miguel reencontra o compositor e pianista que nos deixou em julho de 2023

Bem antes de partir, aos 88 anos, em julho de 2023, João Donato já tinha virado verbo. Músicos, arranjadores, compositores, cantores, produtores, volta e meia, falavam algo como: “vamos donatear um pouco”. Não eram necessários termos mais técnicos para passar a ideia embutida de balanço, leveza, lirismo e simplicidade sofisticada no delicioso e preciso neologismo. Afinal, desde o início dos anos 1950, João Donato de Oliveira Neto (nascido em Rio Branco, no Acre, em 17 de agosto de 1934) vinha donateando a música brasileira. E mundial. Em 1959, sem lugar para seu original estilo no Brasil, foi para os EUA, onde viveu até 1972, ajudando também a formatar o jazz latino, quando tocou com, entre outros, Mongo Santamaria, Eddie Palmieri, Cal Tjader, Bud Shank…

Roberto Menescal e Maurício Einhorn: amigos de Donato desde o início dos anos 1950 / Fotos: Antonio Carlos Miguel

Ontem à noite, em homenagem aos 90 anos que iria completar em 2024, donateamos muito. Na sede da Abramus (a associação de gestão coletiva de Direitos Autorais à qual ele era filiado), João Donato esteve muito presente. Na obra recriada por tanta gente que fez música com ele, a começar pelo filho Donatinho, um dos que se revezou no teclado (com Vanessa Rodrigues e Cliff Korman), e a companheira do último terço de vida, Ivone Belém (e seu filho André). E Robertinho Silva (baterista e percussionista que começou a tocar com Donato em 1982, justamente na sessão de gravação em que Nara Leão apresentou ao mundo “Nasci para bailar”), o trompetista José Arimateia, as cantoras Cris Delanno e Luana Mallet;  o cantor Augusto Martins, o violonista Gabriel Improta, o baterista Renato Massa… E outros que passaram pela jam e não sabia ou guardei os nomes.

Robertinho Silva
Roberto Mello entrega placa a Donatinho e Ivone Belém

Também estiveram lá companheiros dos primeiros anos, ainda tocando muito, como Roberto Menescal e Maurício Einhorn. E a cineasta Tetê Moraes, o produtor Daniel Rodriguez…  Por vídeo, o irmão Lysias Ênio (parceiro em clássicos como Até quem sabe e Amazonas) enviou belo e emocionado depoimento. A placa entregue a Ivone e Donatinho por Roberto Mello (diretor-presidente da Abramus) traz alguns números: 470 composições, 753 fonogramas e 844 gravações de sua obra.

Luana Mallet e Donatinho
Cris Delanno, José Arimateia (trompete), Gabriel Improta (violao), Augusto Martins e Vanessa Rodrigues (teclado)

Números são números. Donato permanece. Em meio a tantas histórias, lembrei-me de uma que divido agora aqui. Por volta de 2009, Donato, Menescal e Marcos Valle e grupo excursionam pela Austrália. Certa dia, na casa dos sogros no sul de Minas, recebo um email empolgado de Marcos contando sobre o show  da noite anterior em alguma cidade-canguru. A plateia tinha delirado em muitos momentos, especialmente com Bananeira. Enquanto divido a notícia com K e, dedo rápido, teclo a resposta, vem da rua o som de um trombone tocando… Bananeira! Como descobrimos depois, naquele fim de semana, acontecia um festival de bandas e fanfarras da região e, no trajeto para o coreto…

Como um koan, esse episódio resume o alcance de Donato. Mais do que o sucesso no outro lado do mundo, a prova definitiva veio  daquele músico anônimo no interior do Brasil. Viva Donato!

Nasci para bailar (João Donato e Paulo André Barata), ao vivo na Abramus

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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