Antônio Carlos Miguel reencontra nas telas o fotógrafo mais musical e pernabucariomineiro do mundo

Aficionados da música brasileira podem não ligar o nome às imagens, mas, Cafi está na memória de muitos junto a tantos discos. Sua visão, o dedo que apertou o obturador, a sensibilidade para escolher qual foto irá dialogar com aquela determinada conjunção de sons, pausas, versos e sentimentos.
Para ficar em três exemplos, os dois meninos, um branco e um preto, na beira de estrada de terra; o par de tênis que o cantor sugeriu como opção ao seu rosto; o retrato do jovem artista enquanto um Lampião pop…

Estas e dezenas de outras se misturam a centenas de mais fotos e imagens em movimento passeando com o fotógrafo por Recife, Rio, Belo Horizonte, São Paulo, Olinda, Ouro Preto, Petrópolis… em Cafi, lírico documentário de Lírio Ferreira e Natara Ney exibido ontem no Estação Net Rio e que, na semana que vem, entrará em curto circuito.
Para um filme que tem como personagem um fotógrafo, a fotografia de Cafi é provocativamente estranha. Quase sempre em preto e branco, ou melhor, quase sempre em diferentes tons de cinza, meio que sofrendo de superexposição. Aparentemente, intencional, cria uma atmosfera de delírio em meio a lembranças que começam na infância em Recife e aos reencontros com pessoas que conviveu em seus 69 anos de vida.

A família trocou a cidade natal pelo Rio no início dos anos 1960 e o adolescente que pensava em virar pintor trocou pinceis e telas por câmeras fotográficas. Em 1970, estreou como capista no LP É a maior!, de Marlene. Dois anos depois, Clube da Esquina, o disco de Milton Nascimento e Lô Borges, marca também a parceria com Ronaldo Bastos, com quem dividiria a criação de muitos álbuns no… Clube da Esquina: tantos outros de Milton, Lô, Beto Guedes, alguns sem suas fotos, caso da capa de Clube da Esquina 2, em 1976, que utilizou trecho de imagem do inglês Frank Meadow Sutcliffe (1853-1941).

Mas, voltando a discos que têm fotos de Cafi, além dos mineiros, a lista prossegue com Alceu Valença, Chico Buarque, Edu Lobo, Geraldo Azevedo, Nana Caymmi, Fagner, Gonzaguinha, Jards Macalé…
Carlos Filho não pode assistir a Cafilme, que embaralha uma longa entrevista gravada em 2016, em Pernambuco, e encontros dele em 2018, quando, acompanhado da equipe de Natara e Lírio, reviu em sequência amigos e parceiros com quem trabalhou através de seis décadas: Alceu Valença, Jards Macalé, Lô Borges, Ronaldo Bastos, Zé Celso Martinez, Deborah Colker e Miguel Rio Branco. Sem que soubesse, era uma despedida: no início da noite de 31 de dezembro de 2019, festejando na Praia do Arpoador a passagem, foi levado por um infarto.
PS: Uma versão menor e diferente do documentário já tinha sido exibida no Canal Curta! Mas, essa é a que vale.
