O mensageiro do jazz

Tárik de Souza conta como Art Blakey criou a melhor e mais duradoura escola jazzística

Para ser lido ao som de Art Blakey & The Jazz Messengers em Nica’s Dream

Rrrrrrrrrrrrrrr tac tac tac. Uma elegia a Art Blakey, o mago da bateria bebop, a usina instrumental que forjou três gerações de jazzistas, deveria começar com um de seus característicos rufares, cortados pela batida seca na lateral das caixas. Através desse discurso polimórfico, sublinhado por leves interjeições de top cymball, o mestre da carapinha branca instalou uma escola rítmica inesgotável, sob a divisa da renovação programática.

“Vou estar sempre com os jovens. Quando estes envelhecerem, eu chamarei outros. Isso mantem a mente ativa”, decretou logo em 1954, quando abriu o palco para Clifford Brown, Horace Silver, Lou Donaldson e Curly Russell, os primeiros Jazz Messenger. Por este combo duradouro, inaugurado experimentalmente em 1947 (a bordo de uma mini orquestra de 17 músicos) e retomado em 1954, em um moto-contínuo que durou até a morte de Blakey – em outubro de 1990 – passaram alguns dos maiores & melhores de todos os tempos. Escolha aí um nome: Keith Jarrett? Wynton Marsalis? Woody Shaw? Hank Mobley? Freddie Hubbard? Donald Byrd? Mulgrew Miller? Chick Corea? Terence Blanchard? Branford Marsalis? Wayne Shorter? Todos foram mensageiros do jazz em algum momento de suas carreiras.

Arthur, o Art, Blakey, nascido em Pittsburgh em 1919, começou aos 15 anos tocando um piano autodidata, mas foi ejetado de seu próprio grupo por outro intuitivo de gênio, um certo Erroll Garner. Desiludido, trocou de instrumento e, em 1939, já pilotava as baquetas da orquestra de Fletcher Henderson. Mergulhou nos estudos, matriculado na escola de Kenny Clarke, o baterista que deu ao instrumento uma concepção mais melódica. Passou por várias outras academias, como a lendária big band de Billy Eckstine (1944-1947) e o quarteto de Buddy DeFranco (1951-1953), além de gravar como free lancer com os papas da modernidade bebop, de Thelonious Monk a Fats Navarro e Charlie Parker.

“Na bateria aprendi que o mais importante é a dinâmica”, ensinou Blakey na revista Down Beat. Uma crítica que ele costumava fazer aos novos bateristas é que frequentemente eles se esquecem de usar as sutis vassourinhas. Outro toque de primeira: “Como baterista você não pode competir com o solo. Se o solista está no meio de um pensamento, tentando conectar ideias e você faz um barulhão, ele vai perder o fio da meada e será obrigado a descobrir uma nova ideia num segundo, o que faz com que tudo fique mais difícil”, avisava.

O garoto órfão que trabalhou duro como operário numa usina siderúrgica aos 13 anos ficou obcecado pela atmosfera familiar, a ponto de casar-se aos 15 anos e, ao longo da vida, adotar sete crianças, que se somariam aos seus sete filhos numa enorme tribo, todos tratando-se de igual para igual. “Aos 13 anos, o cara já é um homem”, disparava ele, do alto de outra frondosa árvore genealógica, a dos Jazz Messengers – uma empresa que se orgulhava de nunca demitir seus empregados. “Eles sentiam a hora certa de procurar seus próprios caminhos”, admitia Blakey com alguma ironia. Uma pitada de cinismo a mais justificava os baixos salários para a banda e um tratamento de segunda classe nas viagens, enquanto o líder ia de primeira. “Assim eles podem falar mal de mim à vontade e tem à disposição uma boa válvula de escape”.

O estágio de dois anos na África (Nigéria e Gana, onde converteu-se ao islamismo com o nome de Abdullah Ibn Buhaina, “Bu” para os íntimos), pesou na virada de mesa que os JM (um dos primeiros grupos liderados por um negro a convocar instrumentistas brancos) deram na cena jazz americana em meados dos 50. Utilizando alternativamente os formatos de quinteto e sexteto, com ênfase nos metais apoiados no tríptico piano, baixo e bateria (que continuou seus eventuais free lancers com Sonny Rollins, Cannonball Adderley e Milt Jackson) com sua polirritmia de ascendência africana marcou o compasso do hard bop, uma leva mais ortodoxa do bebop. Sua capacidade de gerar breaks e comandar o pulso da banda a partir de rufos contínuos garantiu-lhe um lugar à parte numa linhagem que vinha de Baby Dods, Chick Webb, Cozy Cole, Jo Jones e Kenny Clarke. Blakey foi um maestro da bateria no jazz”.

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