Roberto Muggiati mostra, seguindo o jargão dos neo-hipsters, como flicks, os filmes, e licks, os improvisos maneiros, se misturam

A canção Stella by Starlight surgiu despretensiosamente de um filme de fantasmas The Uninvited (A casa assombrada, 1944), na linha sofisticada de Rebeca, de Alfred Hitchcock, estreia do diretor Lewis Allen. Aterrorizados numa mansão fantasmagórica que alugaram num local ermo, o irmão compositor (Ray Milland) cria uma serenata para a irmã (na verdade um “duplo” dela) e a nomeia de Stella by Starlight. A melodia instrumental belíssima de Victor Young agradou mais até que o filme, a tal ponto que Ned Washington foi convidado para acrescentar-lhe uma letra.
Em maio de 1947, a gravação de Stella by Starlight por Harry James e sua orquestra chegou ao 21º lugar nas paradas, um feito para o jazz instrumental. Dois meses depois, a versão cantada por Frank Sinatra atingia também o 21º lugar.
Criança-prodígio, Victor Young (1900-56) começou a carreira como violinista, evoluiu depois para maestro, arranjador e compositor e band-leader, trabalhando no rádio e em centenas de filmes (acompanhou Judy Garland na gravação de Over the Rainbow). Indicado para mais de 20 Oscars, recebeu postumamente o prêmio da Academia em 1956 pela trilha de A Volta ao Mundo em 80 Dias. Henry Mancini assim definiu Victor Young: “Bastava sentar-se ao piano e as melodias lhe escorriam pelas mangas do paletó”.
A produção do filme achou que o acréscimo de uma letra ajudaria a vender discos e aumentaria a bilheteria do filme. Para Ned Washington, o trabalho de letrista era uma batata quente, porque a canção já vinha com um título cravado. Teve de fazer uma ginástica para encaixá-lo, no meio da canção: “That great symphonic theme, that’s Stella by Starlight/ And not a dream/My heart and I agree/She’s everything on this earth to me.”
Ned Washington (1901-76), além de músico e letrista, foi agente teatral. Alguns de seus hits, todos destacados jazz standards: a canção-tema da orquestra de Tommy Dorsey, I’m Getting Sentimental Over You; dois Oscars por Pinóquio (1940) – melhor trilha e melhor canção (When You Wish Upon a Star); o Oscar de melhor canção pelo tema de Matar ou Morrer (1952), o tema de outro blockbuster, Um Fio de Esperança (1954). Fez ainda a letra da canção dor-de-cotovelo de Bing Crosby, I Don’t Stand a Ghost of a Chance With You. Em 1949 emplacou outro sucesso com Victor Young, a canção tema de My Foolish Heart, o único texto que J.D. Salinger vendeu para o cinema – e se arrependeu até a morte…
Como arqueologia, vamos ouvir as primeiras versões:
Primeiro com Harry James e sua orquestra, depois com Frank Sinatra e então partir para as grandes interpretações: a de John Coltrane, com o quinteto de Miles Davis e Bill Evans e a de Bill Evans em Conversations with Myself. E, pagando tributo à memória afetiva dos meus dezoito anos, quando começava a arranhar num sax tenor, uma versão cool de Stan Getz, do álbum em que aparece na capa com o filho, que me leva direto para uma fria noite curitibana, entre os altos do Batel e do Bigorrilho.
