Uma noite em 1991

Tárik de Souza lembra aqueles dias de março que antecederam o lançamento de João, o então novo disco de João Gilberto

Para ser lido ao som de João Gilberto em João 

Foto: Tuca Vieira/CC BY-SA 2.0/Wikimedia Commons

Quase um ano depois de iniciada, na calada da noite nos estúdios da Polygram na Barra, dissipam-se as brumas da superprodução musical do novo disco de João Gilberto, orçada entre US$ 50 mil e US$ 100 mil e realizada na ponte Los Angeles-Rio.  Como tudo que o envolve, um denso mistério foi gerado pelas aparições do cantor no seu Monza em maio passado na gravadora. Nesse meio tempo, as gravações registradas a princípio em DAT (Digital Audio Tape) com voz e violão casadas, foram substituídas pelo sistema multirack analógico de 24 canais (“Não tínhamos aqui o multirack digital”, justifica o diretor artístico da gravadora e coprodutor do disco, Mayrton Bahia), que possibilitou o acréscimo de várias formações orquestrais pilotadas pelo maestro americano Clare Fischer, o mesmo de Prince, no Madhatter Studio, de Los Angeles. Com isso, a versão CD de João, que chegou às lojas em abril de 1991, sai sob a rubrica técnica ADD, o que sinaliza maior assepsia no resultado final. Mas como prefaciou Tom Jobim no começo da carreira do cantor, todos os elementos da gravação convergem para a personalidade centrífuga de João Gilberto. A orquestra é ele, o violão e a voz que começou a ser registrada ainda na fase do 78 rotações por minuto, no histórico desempenho de Chega de Saudade, de 1958, chegou à era do laser com a mesma integridade e a malemolência dos primeiros tempos.

O diálogo do rigor estético com a malícia interpretativa gira a chave desta permanência tão longa nos púlpitos da MPB. João não descobriu apenas uma batida diferente no sotaque de seu violão orquestral. Ele alterou os conceitos do canto acoplado ao violão e regeu com sua batuta de voz guia não apenas os óbvios arredores da bossa nova (já na célebre contracapa do LP de estreia, em 1959, Tom Jobim dizia que João em pouquíssimo tempo influenciou “toda uma geração”). Também outros chefes de clã como o jovemguardião Roberto Carlos, o tropicalista Caetano veloso e o franco atirador Jorge Benjor, queimaram incenso em seu altar. Em João, o tempo só passa no compasso pessoal de seu astro, quase como num porta-retrato do artista enquanto (eternamente) jovem. Nenhuma das músicas é inédita, a maioria das faixas foi pescada no baú de lembranças do cantor, nas vizinhanças das décadas de 40 e 50.

A sincopada Rosinha (“Eu quero abandonar essa vida e me casar/você me enfeitiçou, amor”) homenageia o então vocalista Jonas Silva, que integrava os Garotos da Lua, antes do próprio João ocupar seu posto. O pandeirista e cantor Antonio Botelho foi quem trouxe João para o Rio em 1949, e assina com Inaldo Vilarinho a dolorida Eu e Meu Coração, outra da seleção. A faixa de abertura, Eu Sambo Mesmo, fazia parte do repertório de audácias de outro grupo vocal das dúzias que povoavam os anos 40, os Anjos do Inferno. E com esta gravação, repleta de acidentes e contrapontos (embora a voz seja uma só), João também celebra a obra rara do precursor Janet de Almeida (o mesmo de Pra que Discutir com Madame?), um ás do balanço do calibre de Garoto, autor (com Luiz Claudio) da sintética Sorriu Pra Mim, um dos jogos de ritmo mais irresistíveis do repertório.

João não teme os tótens e atravessa a bordo de um minimalismo de comover a solene catedral de Ave Maria no Morro, de Herivelto Martins, e os saltitantes desafios de Palpite Ingfeliz, de Noel Rosa. Arranjador de Paul McCartney a Paula Abdul, Clare Fischer (escolhido numa lista de indicados por João, após ter tocado órgão em seu disco Brasil) não aparenta na caligrafia ágil os 60 anos que completou no estúdio durante a gravação. Alterna formações de cordas e sopros e faz o milagre de esgueirar-se com naipes inteiros, pé ante pé entre os compassos, adaptando-se ao recorte acidentado do cantor. Tanto carrega de tintas deprimidas de Siga, de Fernando Lobo, baixando sobre a faixa uma cortina de violinos, quanto suinga na reestruturação bossa nova de You do Something to me, de Cole Porter, da ala internacional da seleção (ao lado da italiana Málaga, da francesa Que Reste-t-il de Nos Amours, e da latina Una Mujer. Mas é em Sampa, de Caetano Veloso, que o cantor e maestro põe-se à prova. João acelera e retarda a magistral polaroide da cidade de campos, espaços, enquanto metais promovem um contraplano semovente ao cenário espesso da letra. Lá pelas tantas, João introduz uma coda melódica ao tronco principal da melô de Velô e segue por ela lampeiro, até reencontrar-se com o original na sintomática utopia: “novos baianos te podem curtir numa boa”. Régua e compasso é que não lhes falta.

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Apenas o compositor Jonas Silva, então diretor da gravadora Imagem e amigo de João Gilberto desde os anos 50, sabia que o mestre baiano gravaria a sua Rosinha, de 1953. A surpresa, porém, foi total para outros dois antigos compositores Herivelto Martins e Fernando Lobo, encontrado por João Gilberto na viagem por canções da primeira metade do século.

A boa notícia deixou a velha guarda da MPB vaidosa. Talvez Herivelto ne conseguisse agradecer, porque no telefonema que deu ao amigo Jonas Silva, João Gilberto botou dez gravações seguidas de Rosinha para o autor ouvir e decidir-se por uma.

Jonas Silva deixou o conjunto vocal Garotos da Lua em 1951, quando dois componentes baianos indicaram “um cara lá da Bahia” para ocupar o seu lugar.

Por conhecer bem as manias de segredo e esconderijos do amigo que ficou sem ver por mais de 15 anos, Fernando Lobo, na época, apesar de surpreso, recebeu com naturalidade a redescoberta de Siga, gravada em 78 rotações pelo rio Irakitan, por Neuza Maria e depois por muitos outros intérpretes. Na década de 40, Fernando Lobo conheceu João Gilberto “na rua”, ou melhor, no Bar Drink, na Avenida Princesa Isabel, em frente à boate Vogue, em Copacabana.

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