A música alegre e descomprometida de Xavier Cugat era tudo que os americanos precisavam para desopilar os ouvidos de problemas políticos e de cracks na Bolsa. Cugat criou mais do que um estilo – criou uma grife
Para ser lido ao som de Xavier Cugat em Perfídia

A raiz africana é a mesma. Ao Norte, ela se transformou em blues, dando origem ao seu filho mais famoso, o rock. Descendo para o Sul, virou samba. Mas foi na América Central, mais especificamente em Cuba, que esses ritmos encontraram o solo mais propício para se desenvolver, dando origem ao calypso, à rumba, ao reggae, à salsa e, principalmente, ao mambo. Este último nasceu como ritual de religiões afro-cubanas e só depois se transformou em música dançante. O pioneiro dos ritmos bailantes que saíram de Cuba e que fizeram sucesso nos Estados Unidos, foi um violinista e band-leader, nascido em Barcelona mas criado em Havana que organizou seu primeiro conjunto latino-americano nos anos 20 e ganhou muita notoriedade na década seguinte participando de vários filmes em Hollywood.
Xavier Cugat – que os americanos insistiam em chamar de Quisseiver Quiiugá – nasceu junto com o século passado e, depois de estudar violino em Havana e em Berlim, foi para Los Angeles. A autenticidade e o exotismo da orquestra de Cugat passaram a ser um dos grandes musts musicais dos Estados Unidos pós-depressão. A música alegre e descomprometida de Cugat era tudo que os americanos precisavam para desopilar os ouvidos de problemas políticos e de cracks na Bolsa. Cugat criou mais do que um estilo – criou uma grife. Seu jeito de interpretar, com um cãozinho chihuahua no colo – homenageado por Woody Allen em A Era do Rádio – era tão exótico quanto a brasileira Carmen Miranda com aquelas bananas e abacaxis na cabeça.
Também na década de 20, em Havana, o guitarrista Guillermo Castillo adaptou estes ritmos afro-cubanos e formou o primeiro conjunto do país especializado em mambo: o Sexteto Habanera. Os sextetos pouco depois foram ampliados e transformados em orquestras. A formação básica desses grupos era um cantor solista – o sonero – um backing vocal com duas ou três vozes – el coro –, um contrabaixo, um piano, um naipe de metais, composto por trompetes, saxofones e trombones; e o principal: um arsenal de instrumentos percussivos (bongôs, congas, timbales, maracas e guiros). Os conjuntos mais modernos também usam bateria e algumas orquestras substituíam os metais por violinos e flautas, seguindo uma influência mais europeia.
Destacaram-se, no pós-guerra, com estas orquestras, vários músicos cubanos: o guitarrista Arsênio Rodrigues, os trompetistas Chocolate Armenteros e Mario Bauza, o percussionista Chano Pozo, os band-leaders Machito e Perez Prado, e o compositor Don Aspiazu, autor do primeiro hit latino nos EUA, El Manicero, ou Peanuts Vendor – Vendedor de Amendoim, prática muito comum entre os imigrantes cubanos.
Desses, Machito foi o que mais se aproximou do jazz, tocando com Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Outro que ficou famoso por esta época foi o timbalero e vibrafonista Tito Puente. A esta altura esta tortilla de ritmos já estava sendo perfeitamente assimilada nos Estados Unidos, sobrando espaços para porto-riquenhos, panamenhos e até brasileiros – o pianista João Donato foi integrante do conjunto de Mongo Santamaria no final dos anos 50.
Entre as mulheres, Célia Cruz, chamada de Rainha da Salsa e musa inspiradora de Caetano Veloso, foi uma das principais responsáveis pelo ressurgimento da salsa e do mambo. Este revival começou na década de 70, quando o guitarrista Carlos Santana, nascido no México e criado na Califórnia, readaptou um antigo sucesso de Tito Puente, Oye Como Va.
Os mamberos e salseros foram incorporados pela música pop, assim como a música pop inexiste sem a presença de um suingue mais caliente. Muitos músicos – Ruben Blades, Willie Colón e Ray Barreto – participaram de discos do Talking Heads, de Paul Simon, de David Byrne. É a volta do colonizado em forma de colonizador. São os tambores africanos e caribenhos ditando os rumos da música pop.
