Roberto Muggiati lembra o dia em que encontrou o saxofonista Benny Carter
Para ser lido ao som de Benny Carter em Key Largo

Numa noite perdida (ou ganha, diria Carlos Drummond de Andrade) do século passado, circa 1981, às três da manhã (“En la noche oscura del alma son siempre las três de la mañana…”), estava eu com Benny Carter no saguão do Maksoud Plaza, aquele grande aquário com elevadores transparentes subindo e descendo e cascatas escorrendo pelas paredes. Bennett Lester Carter parecia mais jovem do que os seus 63 anos (chegaria até os 95) e mostrava-se descansado, apesar de ter tocado dois sets de hora e meia cada. Saxofonista, bom também de clarineta e trompete, compositor de belas canções, foi ele o homem que desenhou o formato definitivo do naipe de saxofones nas big bands: dois altos, dois tenores e um barítono. Aquela foi minha estreia na série de shows de jazz no 150 Club que prosseguiria com a pianista Toshiko Akiyoshi e seu marido, o saxofonista Lew Tabackin, os cantores Joe Williams e Anita O’Day e a dama centenária do blues, Alberta Hunter. Mas isso já seria matéria para um livro.
Limito-me aqui a uma das “abobrinhas cinematográficas” da minha coleção: a presença de Benny Carter e sua música em dois filmes baseados em obras de Ernest Hemingway e estrelados por Ava Gardner e dirigidos por Henry King: As Neves do Kilimanjaro (1952) e …E agora brilha o Sol (1957). No primeiro, Ava puxa conversa numa boate com Gregory Peck comentando sobre Benny: “Este africano não tem mesmo pena de nós?” “Africano?” Deixa pra lá… Ava Gardner – que Jean Cocteau chamou de “o animal mais bonito da terra” – está acima do bem e do mal.
