Antônio Carlos Miguel volta aos primeiros dias do Golpe que agora completa seis décadas
Hoje, é sem música como tema. Mas, podemos pensar em trilha adequada, afinal, muito da resistência à ditadura também passou pela canção brasileira dos anos 1960 e 70. E, apesar do pedido de Lula 3, temos que falar do Golpe de 64, sim. Não foi a primeira vez que as Forças Armadas e um coletivo de conservadores de diferentes parcelas da sociedade rasgaram a Constituição. Recentemente, mesmo com um verniz legal, o Brasil foi golpeado em 2016 no impeachment de Dilma e, novamente, quase em 8 de janeiro de 2023. Em ambos, com pressão de grande parte dos militares.
Lembro-me bem daquela segunda-feira, 2 de abril de 1964, em Florianópolis, durante o recreio na escola pública primária em que estudava com minha irmã um ano mais nova. Professoras vieram nos procurar para dizer que estávamos liberados das outras aulas e devíamos ir para a casa de nosso avô paterno. Este (e um de nossos tios), aos nos receber e também ao irmão um ano mais velho (vindo de outra escola), contou que o pai tinha sido preso e pediu que prometêssemos nunca nos envolver com política. Alguns dias depois, foi a vez da mãe, buscada em casa.

Apesar da prisão do pai, na manhã seguinte, a vida seguia quase normal. E, naquele 3 de abril de 1964, voltando para casa após o fim da aula, minha irmã e eu nos deparamos com uma pilha de livros queimados em plena Praça Quinze, no Centro de Floripa. Estavam em frente à livraria Anita Garibaldi, da qual, anos antes, Salim tinha sido um dos donos – até um sócio alertá-lo que ele era o melhor cliente, quase sempre que alguém encomendava um livro, o pai pedia um também para ele, fissurado em literatura.
“Primeiro queimam livros, depois, seres humanos”, escreveu o poeta alemão Heinrich Heine. Verdade que se confirmou nos tenebrosos anos que se seguiram.
Ele passou 45 dias em celas do 4º Batalhão da Polícia Militar, temporada que, 30 anos depois, serviu de base para o livro “Primeiro de Abril: Narrativas da Cadeia” (José Olympio Editora, 1994). Ela, uma semana em alojamentos no Hospital da PM de SC e mais 90 dias de prisão domiciliar – parte dessa história está no documentário “Eglê”, dirigido por Adriane Canan, que começa a ser exibido em Santa Catarina.
Sobrevivemos, muita gente passou por coisas muito mais pesadas, e o Brasil se afundou em 21 anos de ditadura militar. As razões para o golpe foram as de sempre, acusações de corrupção, crise na economia e ameaça de comunismo.
O Golpe de 64 aconteceu apesar de João Goulart ter então mais de 60% de aprovação popular. Insuficiente, no entanto, para enfrentar a união de Forças Armadas), capital nacional e estrangeiro, partes da igreja e da classe política sempre golpista (sintetizada na figura de Carlos Lacerda), conservadores em geral e a pressão dos EUA (que botou sua frota marítima a caminho do litoral brasileiro).
As Reformas de Base, que a direita apontava como confirmação de comunismo (no tripé habitual, ao lado das acusações de corrupção e de uma economia em frangalhos), eram afirmação de soberania e aposta em crescimento. No caso da reforma agrária, o projeto do governo de Jango previa desapropriação em torno dos rodovias federais, represas e açudes também construídos pelo governo, com um milhão de certificados de posse. Ou seja, propriedades privadas, nas mãos de famílias, e não do estado. Como, na época, 70% dos brasileiros viviam no campo, a reforma impediria o êxodo rural e o inchaço das grandes cidades – atualmente, os números mais que se inverteram, com apenas 20% da população no interior. Em relação à economia, quando Goulart foi deposto, o Brasil devia 80 milhões de dólares. Vinte e um ano depois, os militares deixaram uma dívida que ultrapassava os 200 bilhões de dólares.
História que deve ser recontada e debatida. E as experiências de Eglê e Salim se somam a de tantos outros. Abaixo, trecho da autodefesa de minha mãe, que está no doc de Adriane:

“Qual o ato subversivo, então? O fato de a indiciada ter como teoria filosófica o marxismo, por ela encarada como a mais humanística filosofia atual, tomada como instrumento de pesquisa produtiva, jamais como dogma estéril? O fato de achar que um dia, dia em que nenhuma vontade poderá impedir mas também não poderá acelerar ao seu bel-prazer, os homens viverão numa sociedade bela e justa, onde não haverá exploração do homem pelo homem, onde cada um dará o máximo pelo bem de todos e a guerra será pesadelo esquecido? O fato de, no que tange à realidade brasileira, a indiciada considerar que as causas principais dos males que nos afligem e cerceiam nosso progresso são o latifúndio e a exploração imperialista, e que há medidas a serem tomadas e reformas a serem feitas que atenderão as necessidades de quase todos os brasileiros?” (Trecho da autodefesa de Eglê Malheiros, presa em abril de 1964 acusada de subversiva)

Então, para quem quiser saber mais e estiver por Floripa e arredores, a boa nessa sexta-feira, dia 5, às 19 horas, é a roda de conversa Narrativas das Cadeias: O Golpe de 64 em Santa Catarina e na obra de Salim. Na mesa estarão o professor Waldir Rampinelli (ex-diretor da Editora da UFSC) e João Vicente Goulart (vice-presidente do PC do B em Brasília, é filho de João Goulart), com a mediação do professor Nildo Ouriques (recém empossado diretor da Editora da UFSC). Vai acontecer no Teatro Carmen Fossari (Rua Desembargador Vitor Lima, 117 – Trindade).
Também está sendo exibido em diversas cidades de Santa Catarina o documentário “Eglê”, que teve sua pré-estreia em julho do ano passado e vai participar de festivais – na sexta-feira da próxima semana, dia 12, vai ser a vez de Chapecó, na Universidade Federal da Fronteira Sul.
