Voa alto o baixo do Reinaldo Plume

Roberto Muggiati escreve sobre o novo livro do conselheiro Reinaldo Figueiredo

Para ser lido ao som da Companhia Estadual de Jazz em Berimbau

Para sacar o Reinaldo Figueiredo é preciso entrar no clima dele, com seu balaio cheio de balanço, improvisos instrumentais, piadas pontuais e dadivosos desenhos. O ex-Casseta & Planeta acaba de lançar mais um livro, Paradas Musicais, pela Mórula Editorial. São 116 páginas de “quadrinhos, cartuns e textos sobre jazz, pop, rock, MPB etc”. Reinaldo e eu nos conhecemos em 1985, quando viramos companheiros anuais (muitas vezes vizinhos de cadeira) no Free Jazz Festival. Foram 16 edições até 2001, quando a alta do dólar decretou o fim do evento – cancelado em 1990 por conta da merda do Plano Collor. O local inicial – lendário, apesar de distante – foi o Hotel Nacional, em São Conrado. O nome se prestava a confusão, sugerindo que se tratava de um festival especializado no estilo “free jazz”, indigesto para a maioria, com seus improvisos intermináveis sem pé nem cabeça. “Free” era a marca do cigarro patrocinadora do festival que apresentou a nata do jazz moderno, do mainstream e da música instrumental brasileira. O próprio criador do “free jazz”, Ornette Coleman – que jogou o jazz num beco sem saída – se apresentou em 1993, já em outra, o gênio sabe sempre se reinventar. Muitas noites compartilhávamos do pescoção, cochilando em meio ao maior barulho, como o da banda de Gil Evans tocando Jimi Hendrix. Cochilamos até encostados na parede quando as cadeiras foram retiradas e o auditório se transformou em pista para a apresentação do grupo de Pat Metheny às quatro da manhã. (Foi isso mesmo, Reinaldo, ou sonhei?) Do Hotel Nacional o Free Jazz foi para as lonjuras do Metropolitan, até encontrar finalmente o seu melhor local, mais perto da civilização, no espaço do Museu de Arte Moderna. Muita lenda do jazz tocou ali, como o trompetista Art Farmer, o saxofonista Lee Konitz e o baterista Roy Haynes, que acompanhou Charlie Parker e ainda está vivo e atuante aos 96 anos.

Ainda minha amizade com o Reinaldo. Em março de 2020, já com os vapores da Covid no ar, assisti ao show em memória do querido tecladista da Companhia Estadual de Jazz, Sérgio Fayne, na Varanda do Maguje, enquanto rolavam as corridas noturnas no Jockey Club. E cedinho na sexta-feira 13 de março fui ouvir a CEJ num “café da manhã com bossa” na Firjan,
em Botafogo. Naquela noite, depois de um belo show do Mauricio Einhorn com o Osmar Milito
num bunker debaixo de um quiosque no Leme, Kapput!: foi decretado o lock out.

Paradas Musicais não para nunca. As caricaturas são perfeitas: Dizzy Gillespie, Claudio Roditi, Chet Baker, Diana Krall. Aparece com destaque o supercrítico Leonard Plume, inspirado no jazz writer Leonard Feather (o sobrenome foi traduzido para o francês), alter ego de Reinaldo. Mais do que jazzófilo, Reinaldo Figueiredo é jazzólogo (edita o programa A Volta ao Jazz em 80 Mundos na Rádio Batuta) e também jazzista (lidera e toca contrabaixo na CEJ, Companhia Estadual de Jazz, que já caminha para os 25 anos).

Vamos nessa, Reinaldo! Eu apoio com entusiasmo todos os bordões do seu novo livro, em particular os que se referem ao mau momento que estamos (sobre)vivendo: “Mais bossa,
menos boçalidade” e “Brasil acima de tudo, jazz acima de todos”.

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