A ética do repertório

Roberto Muggiati lembra que a altura filosófica dos 80 anos traz a vantagem de fazer você enxergar tudo mais claro. Daí estas reflexões sobre o jazz, amadurecidas ao longo de toda uma vida

Para ser lido ao som de Billie Holiday em The End of a Love Affair

Arte: Gilmar Fraga
Arte: Gilmar Fraga

Outra noite me refugiei do calor com Lady R no bar do Iate Clube do Rio de Janeiro para ouvir jazz e bossa nova. O duo da casa é ótimo, Paulo Midosi ao teclado, Haroldo Cazes no baixo. O espaço é pequeno e intimista, embora às vezes grupinhos ruidosos insistam – sem sucesso – em tirar do sério o duo. Nos intervalos, Lady R e eu conversamos com os músicos. Naquela noite, para minha surpresa, tocaram o standard The End of a Love Affair, não é dos mais corriqueiros. Perguntei se conheciam a versão alatinada dos Jazz Messengers no seu álbum de estreia. Lembrei então o embate mortal de Billie Holiday com a canção – que nunca cantara antes – mas da qual saiu velha conhecida depois de dez angustiantes minutos de tentativas, até chegar à versão final, perfeita. Isso foi no seu penúltimo álbum, Lady in Satin, de 1958, relançado em CD, com as vísceras à mostra, em 1997.

Fui levado a pensar mais fundo na relação de Billie com o seu repertório. Em geral, o músico do jazz improvisa sobre composições próprias ou de colegas (“originals”), ou sobre standards e blues. O repertório de Billie Holiday é um dos mais coerentes que conheço. Ela preferia repetir coisas do seu songbook – I Cried For You (sua grife sonora), These Foolish ThingsThis Years Kisses – a se abrir para uma novelty, aquele tipo de música que os jazzistas chamam de “comercial”. Louis Armstrong começou a apelar para esse expediente já em 1950 com La Vie en Rose e C’Est Si Bon e, depois, com Mack, the Knife e Hello Dolly, também explorados por Ella Fitzgerald. Faço um reparo: Billie, de mansinho na calada da noite, gravou em 1938 uma canção francesa: Mon Homme – um hit de 1920 de Mistinguett – mas quem a ouve cantar a versão My Man jura que é composição sua. Aliás, além dos standards que ela adorava, Billie tem um punhado notável de composições próprias, geralmente em parceria com um letrista: God Bless the ChildI Love My ManFine and MellowDon’t Explain, todos clássicos da torch song; na última a mulher pede ao homem que chega em casa tarde da noite: “Deixa pra lá esse batom, não explique.”

Billie sempre esteve em sintonia com o seu tempo, inclusive com o existencialismo de calçada: ela cantou Good Morning Heartache oito anos antes de Françoise Sagan publicar seu romance Bonjour, Tristesse. Mais importante: em 1939, no Café Society – o primeiro clube noturno racialmente integrado de Nova York – ela apresentou Strange Fruit, uma canção dura e sofrida sobre o linchamento de negros no Sul dos Estados Unidos. Interpretada com uma gota de sangue em cada nota, Strange Fruit, muito antes do tempo, foi a canção de protesto pioneira – e a mais forte de todas.

Um tropeço de repertório pode custar caro. Não há nada mais patético do que nos despedirmos do grande Louis Armstrong com a imagem de um velho gagá cantando que estávamos vivendo num mundo maravilhoso (What a Wonderful World) no exato momento em que milhares matavam e morriam no Vietnã e nas ruas americanas soldados empunhando fuzis massacravam estudantes e negros, e líderes como Martin Luther King e Robert Kennedy eram assassinados.

Num próximo texto vou analisar brevemente como jazzistas importantes lidaram com o seu repertório e que nível atingiram na Escala Holiday. Músicos como Bill Evans, Thelonious Monk, Miles Davis, Charlie Parker, Chet Baker, Stan Getz e outros – não haverá aqui limite de espaço. Foi justamente a falta de espaço na mídia para esse tipo de material que me levou a ter a ideia de criar uma coluna virtual para um grupo selecionado e querido de amigos.

Ouvindo jazz desde criancinha, trabalhando em jornal a partir dos dezesseis anos, enverguei muito cedo o manto sagrado desta entidade que chamam “crítico de jazz” e que raramente exerce a crítica no sentido mais amplo da palavra. A maior parte das vezes, o crítico de jazz é um acumulador de informação que compete com o colega e escreve só para ele, o leitor que se dane. Prometo crucificar esse bizarro personagem num texto à parte – sem excluir os muitos pecadilhos que cometi enquanto vesti a sua pele.

A altura filosófica dos oitenta anos tem a grande vantagem de fazer você enxergar tudo mais claro, pelo menos é o que vem acontecendo comigo. Daí estas reflexões sobre o jazz, amadurecidas ao longo de toda uma vida, e que tenho, mais do que o dever, o prazer de compartilhar com vocês.

Anúncios

Nenhum pensamento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.