Tuplec tuplim

Fabiano Maciel escreve sobre Orlandivo, que por não tocar nenhum instrumento, passou a usar um molho de chaves para acompanhar seu canto. A chave virou sua marca registrada e também a chave para seu sucesso

Para ser lido ao som de Os Cobras em O LP

Foto: Marcelo Guru/Cena do documentário Sambalanço – A Bossa que Dança

Bracarense, um dos mais concorridos botecos do Leblon, início dos anos 2000. O DJ e agitador cultural Zé Octávio conversa animadamente com um amigo sobre Orlandivo, que na época se apresentava em pequenos,  mas concorridos, shows em uma decadente boate de Ipanema. É Orlandivo pra cá, Orlandivo pra lá, até que uma moça curiosa no balcão pergunta: O que é um Orlandivo? Bem, a pergunta da moça não era de todo descabida. No início dos anos 2000 pouca gente se lembrava de Orlandivo, e até hoje muito pouca gente sabe que ele é o autor de dois clássicos da MPB: Bolinha de Sabão (em parceria com Adilson de Azevedo) e Vô Batê Pa Tu (em parceria com Arnaud Rodrigues), megassucesso de Baiano e os Novos Caetanos, paródia de Chico Anysio ao baianês caetânico e zelberto zelistico pós tropicalista.  Mas, no início dos anos 2000, os discos de Orlandivo estavam sendo relançados na Inglaterra pelo selo WhatMusic e algumas de suas músicas começavam a ser sampleadas por dejotas mais atentos às raridades da MPB.

Catarinense de Itajaí, Orlandivo chegou adolescente no Rio para morar na Praça 11, que ainda era um ponto da velha guarda do samba e da malandragem. Bebendo diretamente na fonte de Sinhô, Mario Reis, Miltinho, Jackson do Pandeiro e Ciro Monteiro, ele usava seu tempo de deslocamento de ônibus entre o Centro e Copacabana para compor suas primeiras músicas.  Conheceu Durval Ferreira, ainda um jovem violonista, o Paulo Silvino, ainda um jovem ator e dublê de cantor e juntos participaram da coletânea Nova Geração em Ritmo de Samba. Este disco tem a curiosidade de ter sido o primeiro a contar com arranjos de Eumir Deodato, que ainda morava com os pais e nem piano tinha em casa.

Biscateando entre as boates Drink de Djalma Ferreira e Arpeje, de Waldir Calmon, entre o Beco das Garrafas e os bailes de formatura no Hotel Glória, Orlandivo foi ser um dos crooners do conjunto de Ed Lincoln, que iria se tornar o rei dos bailes cariocas. Gravou na Musidisc seus primeiros discos solo, apresentou programas na TV Rio e numa sacada de mestre, por não tocar nenhum instrumento, passou a usar um molho de chaves para acompanhar seu canto. A chave virou sua marca registrada e também a chave para seu sucesso. Não é trocadilho, este foi o nome de seu primeiro disco. E junto com seus parceiros Ed Lincoln e Durval Ferreira, ele atravessaria a década de 60 entre a bossa nova e os bailes, entre o samba e os ritmos latinos, alternando composições sofisticadas e jazzistícas com músicas feitas propositalmente para fazer sucesso. Durval Ferreira chegou a assinar algumas com pseudônimo.

O fato é que tanto Chuva e Moça Flor, quanto O Ganso e Eu Não vou Mais, são sensacionais. Cada qual com seu cada qual, como dizia o Tim Maia. Orlandivo certamente não era da turma do apartamento da Nara. Era baile no Grajaú Tênis Clube, do Melo, do Guadalupe. Mas o galã da TV Rio, que não tocava instrumento algum, que não lia música e que mostrava suas composições batucando suas chaves é o autor de quatro (em parceria com Roberto Jorge, outro mistério da música brasileira) das 12 músicas  daquele que é para mim, o melhor disco brasileiro de jazz de todos os tempos. Uns dirão que é samba-jazz. E estarão corretos. Outros que é bossa-jazz. E estarão corretos também. O nome do disco é O LP e foi gravado em 1964 por um grupo batizado de Os Cobras especialmente para esta gravação. Saquem a escalação: J.T. Meirelles no saxofone e flauta, Tenório Jr. no piano, José Carlos no contra baixo, Milton Banana na bateria, Raul de Souza no trombone e Hamilton no trompete. O disco ainda tem as participações de Paulo Moura no sax-alto e Roberto Menescal no violão. Sinister, como diz o Maurício Valladares. Este disco, despretensioso, produzido porque o estúdio da RCA estava com horário ocioso, e praticamente de “prima”, tem músicas de Moacir Santos, Clifford Brown, Menescal, Meirelles e…Orlandivo!

Em muitas de suas músicas, ele inventa palavras  e expressões, samba-blim, blom, tuplec tuplin, ecoando os tamborins ouvidos na Praça 11. São palavras que traduzem os sons dos instrumentos. Quem não escreve a nota, transcreve o som delas nas palavras. Talvez por isto ele tenha tido a admiração de gente tão cascuda como João Donato, Henrique Cazes, Eumir Deodato, Ed Motta, Joyce e Jorge Ben. Sim, Jorge Ben, que gravou pouquíssimas composições de outros autores, gravou em seu segundo disco uma música de Orlandivo, a suingada “Onde Anda o Meu Amor”.

Conheci o monstro em 2002, quando propus à ele e a Durval Ferreira fazer um documentário sobre o Sambalanço, projeto meu e do Tárik de Souza, que espero conseguir lançar em 2019. Devo isto a Orlandivo. E a Durval Ferreira, Ed Lincoln e Miltinho. Entre 2002 e 2017, ano em que ele faleceu, tive a chance de vê-lo tocar com Marcos Valle, João Donato, Emilio Santiago, Dóris Monteiro, Wilson das Neves e muitos outros. A voz já não era a mesma, mas o balanço, o ritmo. Putaqueparile! Na última vez que nos falamos, ele me ligou, embaladão de birinaites  e me mostrou uma gravação ao vivo de Tamanco no Samba executada por nada mais nada menos que Cal Tjader. Ele tava emocionadão. Assim como eu fiquei ao entrar em uma gigantesca loja de discos em Tóquio e deparar na porta com o disco de Orlandivo de 1977 ao lado dos “Cobras”. Estavam pedindo uma baba. E vale mesmo. Muito.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.