É importante voltar à escola

Em conversa com Ron Carter, ele explica como novas e velhas gerações precisam estar sempre interagindo

Para ser lido ao som de Ron Carter em Wave

Há 25 anos, em janeiro de 1994, Ron Carter – grande atração do lançamento da nova edição do POA Jazz Festival – me concedeu a entrevista que segue. Eram outros tempos. Os irmãos Marsalis eram apontados por ele como revelações, o Mistura Fina existia, o Jornal do Brasil em papel também existia (depois morreu, ressuscitou e voltou a morrer recentemente) e as entrevistas eram feitas por telefones com fio. Foi assim que eu do Rio e Ron Carter de Nova York conversamos brevemente sobre o show que ele faria poucos dias depois. Seria a quarta vez que eu veria o grande (em todos os sentidos) contrabaixista em ação. Desde então, muita coisa mudou. O que não mudou nesse tempo todo foi a elegância de Ron Carter – no tocar, no tratar, no vestir. A mesma elegância que ele mostrará pela primeira vez em Porto Alegre agora em maio. E eu, pela quinta vez, poderei vê-lo.

Faça o teste: pegue discos de Miles Davis, Carlos Santana, Tom Jobim, Bill Evans, Benny Goodman, B.B. King e James Brown e ache algo em comum. A resposta será o contrabaixista Ron Carter, um americano de 56 anos e que há pelo menos três décadas vem emprestando talento e sensibilidade musical a cantores e compositores dos mais diferentes estilos e tendências. Emoção, técnica refinada e bom gosto – se já nas próprias composições, seja na interpretação de standards – fazem de Ron Carter  o mais completo contrabaixista do jazz atual e, ao lado de Charles Mingus e Oscar Pettiford, o mais importante músico na evolução desse instrumento. Esse ecletismo que ele considera a coisa mais natural do mundo (“Tudo é música. Não há diferenças entre as notas”, diz) estará à mostra a partir da próxima terça-feira, no Mistura Fina, num show que Carter fará ao lado de Guilherme Vergueiro e Robertinho Silva.

De Nova York, pelo telefone, Carter falou ao Jornal do Brasil e recordou o trabalho ao lado de grandes nomes do jazz, do rock e da música brasileira. “Gosto muito dos ritmos brasileiros e dos trabalhos de Tom Jobim, Hermeto Pascoal e Milton Nascimento. Existe uma forte ligação entre os sons brasileiros e o jazz”. Carter também falou sobre os anos ao lado de Miles Davis e da posterior experiência do Tributo a Miles Davis, um quinteto que reunia a seção rítmica do conjunto original dos anos 60, com o jovem talento Wallace Roney no lugar que um dia foi de Miles.

Ron Carter começou no violoncelo, estudando na Eastman School of Music de 1956 a 1959, transferindo-se posteriormente para Manhattan School of Music. Já nessa época era um nome respeitado nas internas do jazz, acompanhando alguns músicos que teriam um papel fundamental no desenvolvimento do jazz nos próximos anos – Cannonball Adderley, Eric Dolphy, e Oliver Nelson. No início dos anos 60, Davis recém tinha desfeito o grupo que liderava, formado por John Coltrane, Bill Evans, Cannonball Adderley, Paul Chambers e Philly Joe Jones e passava a prestar maior atenção em novos músicos. Um destes foi Ron Carter, convidado para integrar o novo quinteto. “Era maravilhoso. Tocar com Miles era algo mágico. Um trabalho excepcional”. O quinteto – que além de Miles e Carter contava com Herbie Hancock, Tony Williams e Wayne Shorter – foi um dos mais importante combos do jazz. Em 1992, Ron Carter juntou-se aos antigos colegas e reeditou o histórico grupo para apresentar todo um repertório estruturado em cima de composições de Miles. “Era uma homenagem a este músico fora de série que Miles foi”.

Músico atento e sensível, Ron Carter vê com bons olhos o surgimento de uma nova geração de instrumentistas. “O jazz está muito bem representado por novos músicos de grande talento como Mulgrew Miller, Wallace Roney e os irmãos Marsalis”, ressaltando que acha muito interessante o fato destes músicos demonstrarem interesse pelo que foi feito pelas gerações anteriores. “Eles sabem que é importante voltar à escola”.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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