Uma gota de sangue em cada canção

Roberto Muggiati lembra de Billie Holiday no 60º ano de sua morte e destaca: o jazz teve muitas cantoras admiráveis – suas torch singers, crooners, first ladies –, mas nenhuma como Lady Day.

Para ser lido ao som de Billie Holiday em Lady Satin

Arte: Gilmar Fraga
Arte: Gilmar Fraga

“Já me disseram que ninguém era capaz de cantar as palavras ‘fome’ ou ‘amor’ como eu. Talvez porque nunca pude esquecer o que estas palavras significam. Todos os Cadillacs e casacos de pele do mundo, e eu tive alguns, não chegam a compensar o que sofri ou me levará a esquecer. Tudo o que aprendi em todos aqueles lugares e com todas aquelas pessoas está resumido nestas duas palavras. Você precisa ter um pouco de comida e um pouco de amor em sua vida antes de ser obrigada a se perfilar e ouvir um maldito sermão sobre como deveria se comportar”. Assim Billie Holiday (1915-1959) definiu o âmago de sua arte na  autobiografia Lady Sings the Blues. O jazz teve muitas cantoras admiráveis – suas torch singers, crooners, first ladies –, mas nenhuma como Lady Day. Quem melhor definiu a marca de distinção que separa Billie das demais foi o clarinetistaTony Scott, que gravou com ela e foi também um grande amigo: “Quando uma cantora de jazz qualquer canta as palavras ‘My man’s gone’ – mesmo com uma voz bonita como a de Ella Fitzgerald  –, fica um sentimento vago de que ele pode ter ido até a esquina comprar um maço de cigarros e vai voltar logo. Quando Billie canta ‘My man’s gone’, o homem se foi para sempre – sua voz expressa em três palavras uma perda total e irreversível.

Billie nasceu Eleanora Fagan, pobre, na aristocrática Baltimore, cidade de brancos ricos. A frase que abre seu livro é típica do seu humor irônico: “Mamãe e papai eram apenas duas crianças quando se casaram. Ele tinha 18 anos, ela 16 e eu 3”. O pai as abandonou, queria ser músico a todo custo – e acabou sendo, como guitarrista de uma banda itinerante. Na verdade, seu sonho era tocar trompete, mas teve os pulmões lesados por gás venenoso na I Guerra. Billie faz um comentário cáustico: “Acho que se ele fosse pianista provavelmente teria levado um tiro na mão”.

A vida começou cedo para Billie. Antes e depois da escola, era menina de recados, babá e lavava os degraus das casas de Baltimore. Toda residência que se prezava na cidade tinha uma escadaria de mármore na porta de entrada e os degraus tinham de estar sempre imaculadamente brancos – trabalho para negros. A “vida” também começou cedo para Billie: faxineira de bordel, foi estuprada, ainda pré-adolescente. Mas o bordel tinha suas compensações. Ela conta, na autobiografia: “Alice Dean tinha um bordel na esquina perto da nossa casa e eu levava recados para ela e para as garotas. Tinha um tino comercial acentuado na época. Nunca ia ao armazém para ninguém por menos de 5 ou 6 centavos. Corria por toda parte para Alice e para as garotas, lavava bacias, colocava o sabonete Lifebuoy e as toalhas. Quando chegava a hora de me pagar, eu dizia a Alice que podia ficar com o dinheiro se me deixasse ir até sua sala de visitas e ouvir Louis Armstrong e Bessie Smith na vitrola. Uma vitrola era um negócio e tanto naqueles dias, e não havia salão nas redondezas que tivesse uma, exceto o de Alice Dean. Passei horas maravilhosas ali, ouvindo Pops e Bessie”.

Billie e a mãe amargaram a depressão econômica em Nova York. Um dia, ameaçadas de despejo por não pagarem o aluguel, Billie saiu desesperada pelas ruas do Harlem. “Tinha decidido que estava cheia desse negócio de piranha. Resolvi também que não ia ser empregada doméstica de ninguém”. Entrou numa boate chamada Pod’s and Jerry’s e pediu emprego a Jerry. Aceitou testá-la como dançarina: foi um fracasso. Então o pianista perguntou: “Ei, garota, você sabe cantar?” E Billie: “Claro que sei cantar mas pra que serve isso?” Ela explicaria depois: “Tinha cantado a vida toda, mas gostava demais de cantar para pensar em ganhar dinheiro com aquilo. Pedi ao pianista que tocasse Travelin’ All Alone. Era o que mais se aproximava do meu estado de espírito. E devo ter transmitido uma parte daquilo à platéia. A boate inteira ficou em silêncio. Se alguém deixasse cair um alfinete, soaria como uma bomba. Quando terminei, todo mundo estava chorando no copo de cerveja e apanhei 38 dólares do chão. Ao deixar a boate, dividi a féria com o pianista e ainda levei para casa 57 dólares”.

Naquela noite – uma data que nem a própria Billie soube definir ao certo – nascia não só a maior cantora de jazz de todos os tempos, mas também a lenda de Lady Day. Quando começou a cantar profissionalmente em boates, Billie fazia a ronda de mesa em mesa. Na época, esperava-se que as cantoras “fisgassem” a gorjeta. Não se tratava de recolher moedas jogadas no chão. O cliente embolotava uma nota de dinheiro e a colocava numa quina da mesa. A cantora se aproximava levantava a saia e tinha de apanhar o dinheiro apertando-o entre as coxas – em certos casos, de garotas mais dotadas, entre os lábios da vagina. Billie Holiday não se submeteu a este humilhante ritual. Cantava tão bem que as pessoas lhe davam o dinheiro na mão. Mas o sistema continuou vigorando para as outras e deixou seus traumas sobre ela, como outras formas de segregação que viveu na carne quando começou a excursionar com a orquestra de Artie Shaw, formada só por músicos brancos.

As plateias dos estados norte-americanos mais conservadores não admitiam mistura racial em grupos musicais. Se Billie negra teve problemas apresentando-se com a orquestra de brancos de Artie Shaw, não deixou também de ter problemas quando excursionava com a orquestra negra de Count Basie. Seu tom pálido de pele morena, acentuado pelos refletores, induzia o público a acreditar que fosse branca. Muitas vezes ela teve de passar graxa no rosto para escurecer a pele e “passar por negra”.

Billie era uma improvisadora nata. Autodidata, não sabia ler música; isso a levava a modificar as letras e, não raras vezes, ela as reescrevia para melhor. “Não aguento cantar a mesma música do mesmo jeito duas noites seguidas”, dizia. “Se isso acontece, então não é música – é ginástica ou ordem unida”. O crítico Max Jones afirmou que “Billie mostrava aspectos novos de si mesma, da letra e da melodia toda vez que cantava um novo tema. Suas melhores interpretações chegavam como uma revelação”. E Henry Pleasants sintetizou: “Sua maneira de abordar uma canção consistia em desmontá-la, para depois a remontar à sua própria imagem”.

Muito antes de se falar em “canção de protesto”, Billie compôs um tema em que resumia toda a sua indignação diante das injustiças sociais e, particularmente, diante do racismo. Foi Strange Fruit, baseada num poema do militante esquerdista Abel Meeropol, que escrevia sob o pseudônimo de Lewis Allen. O “estranho fruto”, que pende de uma árvore na paisagem do “galante sul” dos Estados Unidos, é nada menos do que o corpo de um negro linchado e enforcado. Diz a letra: “Southern trees bear a strange fruit, blood on the leaves and blood at the roots, black bodies swinging In the Southern breeze, strange fruit hanging from the poplar trees”. (“Arvores do sul carregam estranhos frutos, sangue nas folhas e sangue nas raízes, corpos negros balançando na brisa sulista, estranhos frutos pendendo do álamo”). Em 1939, quando foi gravada e apresentada no Café Society, o cabaré de sucesso da época, a canção chocou com seu tom dramático, era um grito de desespero diante da injustiça e violência do mundo dos homens; não surpreende que tenha abalado as plateias bem comportadas, sido vetada pela Columbia, proibida pela maioria das rádios e gravada por um pequeno selo independente, o Commodore.

Racismo, desamor, conflitos familiares, casamentos falidos, empresários desonestos, policiais corruptos, o inferno da bebida e das drogas – Billie teve de passar por tudo isso para deixar sua marca na música vocal do século 20X, imortalizada por mais de 25 anos de gravações. Sua fase mais notável foi aquela (entre 1937 e 1938) em que teve o saxofonista-clarinetista Lester Young como acompanhante. Além de brindarem um ao outro com seus codinomes artísticos – Pres(ident) e Lady Day – Lester e Billie gravaram 49 faixas no breve tempo em que durou a associação artística. Billie dizia: “Nunca penso que estou cantando, mas tenho a impressão de que estou tocando um instrumento de sopro. Tento improvisar como Lester, como Louis Armstrong ou qualquer outro que admiro”.

 Sem dúvida, de todas essas influências, o estilo cool de Lester Young – a incrível sensação de relaxamento muscular e mental que transmite, as frases longas, os retardamentos de ritmo e o uso do silêncio – foi fundamental para o discurso vocal de Billie. Os dois viveram uma autêntica Love story musical. Depois, cada um seguiu seu caminho. Diz o historiador de Jazz Rudi Blesh: “Poderiam atingir altos momentos de felicidade, mas a paz estava além deles. Eram ambos ensimesmados, introspectivos, dolorosamente sensíveis”.

Billie Holiday morreu em 17 de julho de 1959, na mesma Nova York em que Lester Young havia morrido quatro meses antes. Como ele, trilhou um longo e árduo caminho para encontrar sua voz singular como intérprete de jazz. No mais de meio século decorrido da sua morte, sua vida e sua arte foram esmiuçadas em vários livros, filmes e documentários de tevê. Figura entre o punhado de músicos de jazz que se tornaram objeto de culto e seus discos vêm sendo admirados por sucessivas gerações. Segundo um de seus biógrafos, Robert O’Meally, “a música que gravou possui um poder transcendental e vai durar enquanto as pessoas se importarem com as verdades tristes e bonitas da vida e com a arte duramente conquistada de transmiti-las”. O mais trágico é que Billie Holiday tinha pleno conhecimento de tudo isso. Como escreveu na autobiografia, publicada em 1956, “você não é ninguém nos Estados Unidos até morrer. A partir de então, você é a maior”.

Diante desta verdade, só lhe restou uma coisa: cantar. Cantar até o fim.

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