Piazzolla, Vinicius e muito mais

Eric Nepomuceno* estreia na AmaJazz revendo uma velha foto e recuperando a memória do encontro de duas grandezas únicas

Para ser lido ao som de Astor Piazzolla em Buenos Aires Hora Cero
e de Vinicius de Moraes, Maria Creuza e Toquinho em Canto de Ossanha

A foto estava lá, ocupando a metade da primeira página do segundo caderno de um conhecido matutino carioca, na edição de quarta-feira, 30 de novembro de 2005. Nela aparece tocando violão, de camisa negra e usando óculos escuros, Vinicius de Moraes. Na mão esquerda que busca um acorde, o leve brilho de uma aliança talvez dourada. Há quatro senhores de terno, há três moças. Dois dos homens olham para Vinicius, duas das moças também. Os olhos da outra, sentada no chão, parecem perdidos em algum devaneio. O terceiro homem, sentado aos pés de Vinicius, tem os olhos semicerrados, como quem ouve com atenção. O rosto do quarto homem está encoberto pelas letras amarelas do título.

Uma mesinha de centro mostra dez copos vazios ou quase, duas garrafas de “água de mesa”, dois pratos usados, um maço de cigarros L&M. A legenda da foto fala de “um tempo de casas abertas, celebração da vida e da arte”, e por aí vai, sem levar a nada ou chegar a lugar algum, insinuando a atmosfera que envolvia um Rio de Janeiro cordial e generoso, embalando a bossa nova em berços vários.

Basta, porém, olhar com um mínimo de atenção para reparar que Vinicius está um tanto mais velho do que nos primórdios da bossa nova, tempo das reuniões que rompiam madrugadas do Rio em alguma casa generosa e aberta. A foto deve ser do final dos anos 60, ou começo dos 70. É estranho, então, que os outros homens estejam de terno e gravata. Naquela altura da vida de Vinicius e do Rio, ninguém se vestiria assim.

Esse olhar minimamente atento mostrará também que o encontro não aconteceu no Rio: ninguém chama água mineral de “água de mesa”, que é o que se lê no rótulo das garrafas. Então, além dos ternos e gravatas extemporâneos, há esse outro indício de que se trata de uma cidade estrangeira.

Mas é ao reparar nos homens da foto que surge a verdadeira curiosidade desse encontro. Sentado numa poltrona, o rosto apoiado na mão esquerda, quem contempla Vinicius é o poeta uruguaio Horácio Ferrer. Ele escreveu letras para canções como Balada para un Loco e Chiquillín de Bachín, além da esplêndida opereta Maria de Buenos Aires. No canto direito da foto, sentado no chão, os cabelos cuidadosamente penteados, a gravata sóbria, o olhar levemente posto entre Vinicius e o nada, quem ouve com atenção é o autor das melodias que receberam as letras de Ferrer, um argentino que revolucionou a música e se chamava Astor Piazzolla.

Certa noite de Buenos Aires, Piazzolla se apresentava com seu quinteto num recital. Amelita Baltar cantava que as canções que ele tinha escrito com Ferrer. De repente, depois dos aplausos e rompendo um silêncio de missa que antecedia a próxima canção, Piazzolla ouviu uma voz gritando em português: “Que maravilha! Filho da puta! Filho da puta!”. E em seguida, de pé na frente do palco, o homem dos gritos desandou a aplaudir. Piazzolla ficou pasmo, até perceber que o homem era Vinicius de Moraes, que ele não conhecia pessoalmente.

Aquela homenagem única de Vinicius a Piazzolla aconteceu antes da foto. O mestre argentino jamais se esqueceu da primeira vez que viu o poeta brasileiro. O que a foto mostra são dois homens que com sua arte viraram a vida pelo avesso. Não é uma reunião de época, não é uma imagem de casas abertas: é bom saber – e lembrar – que é o registro do encontro de duas grandezas únicas. E das quais somos todos herdeiros, sabendo ou não.


*Eric Nepomuceno, um dos maiores contistas brasileiros (leia Coisas do MundoQuarta-Feira… e comprove), é meu amigo há quase três décadas. Nesse período, nos encontramos por várias vezes em redações, feiras literárias, centros culturais, cafés, bares e restaurantes. Agora, tenho o prazer e a alegria de reencontrá-lo aqui, neste site que edito e no qual ele me homenageia com a autorização para republicar este relato. Escrito há mais de uma década, o texto é um belo exercício de memória em que Eric recorda com carinho de duas pessoas que foram fundamentais na sua formação intelectual e humanista: Vinicius de Moraes e Astor Piazzolla. Eric também faz um exercício memorialístico a respeito de Buenos Aires, principalmente a cidade que conheceu no começo dos anos 70 e que era ponto de encontro de – além dos já citados acima – outros tantos nomes importante como Ferreira Gullar, Julio Cortázar, Eduardo Galeano, José Carlos de Oliveira, Horacio Ferrer, Chico Buarque, Alfredo Zitarrosa, Juan Gelman, Flavio Tavares e muitos mais. Buenos Aires era, então, a mais cosmopolita das metrópoles da América do Sul. E era ainda um respiradouro em meio a um continente que ficava cada vez mais asfixiado. Tudo iria mudar no dia 24 de março de 1976. E novamente Eric se recorda: “A coisa vinha de horror em horror fazia uns dois anos, é verdade. Mas ninguém podia prever o que viria depois. E preferi lembrar dos tempos em que fui feliz como um menino nessa cidade mágica, quando as esperanças eram jovens, e meus amigos perambulavam por ali. Em Buenos Aires, onde morei entre fevereiro de 1973 e julho de 1976, amei e fui amado, fiz amigos para o resto da vida, fui feliz de dar inveja. Ali, aos oito ou nove meses, meu filho engatinhou pela primeira vez, e olhou o mundo enquanto se equilibrava sobre suas pernas bambas. Esse é um tempo que ninguém me devolve. Essa é uma memória que ninguém me rouba. Meus cafés fazem parte da lista dos desaparecidos. A memória, não”. Este texto é para que ninguém nunca mais se esqueça. (Márcio Pinheiro)

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