Esqueceu a letra? Inventa!

Roberto Muggiati lembra como o scat foi uma invenção casual de Louis Armstrong que teve tudo a ver com a capacidade do jazz de improvisar soluções

Para ser lido ao som de Louis Armstrong em Heebies Jeebies

Arte: Gilmar Fraga
Arte: Gilmar Fraga

O estilo vocal chamado scat – o uso da voz como se fosse um instrumento, um saxofone ou trompete, cantarolando as notas sem enunciar as palavras – é um dos grandes trunfos e uma espécie de marca registrada dos cantores e das cantoras de jazz. Particularmente notáveis no exercício do scat foram divas como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Betty Carter e cantores como Billy Eckstine, Mel Tormé e, mais recentemente, Al Jarreau e George Benson. Até Frank Sinatra – o cantor popular mais sintonizado com o jazz – se entregava vez por outra a um scat, como o conhecido shu-bi-du-bi-duuuu de Strangers in the Night. Existem ainda grupos vocais adeptos do scat, como os Swingle Singers e o Manhattan Transfer. Merece ainda menção Chet Baker, que toca o trompete como quem canta e canta como quem toca o trompete – uma contrapartida cool de Louis Armstrong.

Segundo a mitologia do jazz, o scat foi uma invenção casual que teve tudo a ver com a capacidade do jazz de improvisar soluções – sua inteligência de, durante o ato da criação, agarrar uma interferência do acaso e incorporá-la à obra de arte, alterando o curso da expressão individual. Louis Armstrong (1901-1971), no meio da gravação de Heebies Jeebies,em 1926, de repente teria esquecido a letra. Sem perder o rebolado, para não interromper o fluxo da interpretação, passou a cantarolar imitando um instrumento, ba-da-duá-bauábuá-badi-dá-dá…

Esta é a versão da história que entrou para a lenda. Na verdade, pesquisas mais recentes dos biógrafos de Armstrong contam que ele tinha a letra da canção escrita numa folha de papel e, a certa altura, deixou-a cair ao chão. Seguiu em frente, cantando com palavras inventadas, onomatopaicas na sua imitação de um instrumento de sopro; enquanto isso, o técnico de som se abaixava para pegar a folha caída, enquanto Armstrong, com o microfone na mão, fazia o mesmo. Ao se levantarem, ambos, literalmente, bateram cabeça. Esta versão é mais plausível, pois no disco, depois de incursionar no scat, Louis retoma a letra da canção. São apenas dois minutos e 53 segundos de gravação. Os velhos discos de 10 polegadas em 78 rotações por minuto raramente ultrapassavam a barreira dos três minutos.

Na época, Heebie Jeebies foi considerado um “noveltyact” – uma daquelas inovações sensacionalistas a que os jazzistas recorriam para aumentar a vendagem dos discos no florescente mercado musical. O sucesso foi imenso: em poucas semanas, Heebie Jeebies vendia mais de 40 mil cópias e tornava-se o primeiro hit na carreira de Armstrong. Segundo o crítico George Avakian: “Louis desenvolveu uma nova escola de jazz vocal, baseada na abordagem dos cantores do folk e do blues, que usavam a voz como um instrumento. Louis mostrou que o significado emocional da letra de uma canção pode ser expressado através de inflexões vocais e improvisações de uma qualidade puramente instrumental tão eficazmente – ou mais ainda – do que através de palavras. Esta linha de desenvolvimento correu paralelamente à sua influência instrumental. E ainda afeta todo cantor popular e de jazz dos nossos dias.

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