Beleza roubada

A morte de Bernardo Bertolucci finaliza um capítulo que se manterá para sempre incompleto e obscuro na história da música e do cinema

Para ser lido ao som de O Último Tango em Paris, de Gato Barbieri

Ilustração: Filoump/CC BY-SA 3.0/Wikimedia Commons
Ilustração: Filoump/CC BY-SA 3.0/Wikimedia Commons

O Último Tango em Paris – não o melhor, nem o mais importante, mas certamente o mais controverso filme de Bernardo Bertolucci – causa polêmica até hoje. Quase cinco décadas depois de seu lançamento, o filme continua a ser discutido, e nem a trilha sonora alcança a unanimidade. A morte de Bertolucci, nesta segunda-feira, enterra a possibilidade de se entender o que houve na polêmica que manteve afastados entre si Bertolucci, Gato Barbieri e Astor Piazzolla.

A ideia inicial do cineasta era de que a música fosse escrita por aquele que era sinônimo de tango (e que conhecia muito bem Paris): Astor Piazzolla. Aos 50 anos, vivendo em Paris na época, Piazzolla era já um nome respeitado. Procurado pelo diretor, o bandoneonista chegou a conversar com Bertolucci sobre a trilha. Porém, demoras, desencontros e fatos nunca claramente explicados, afastaram o compositor argentino do cineasta italiano. É aí que entra na jogada o músico Gato Barbieri. Também argentino, onze anos mais jovem do que Piazzolla, ele vinha em ascensão. Saíra da Argentina, tivera uma passagem rápida (e pouco importante) pelo Brasil e recentemente ganhara uma notoriedade nos circuitos do jazz de vanguarda de Nova York.

Gato, nascido Leandro Barbieri em Rosario, na Argentina, começara em conjuntos de adolescentes ao lado de um irmão, também músico e que tocava bateria. Mais tarde, esse irmão abandonaria a música e faria carreira na Marinha argentina. Gato amadureceu jazzisticamente ao lado de Lalo Schifrin e ampliaria sua maneira de tocar a partir das influências do free jazz de John Coltrane, Don Cherry e Pharoah Sanders.

Piazzolla, por caminhos diferentes, também seria uma influência. Era impossível a qualquer um que se interessasse pelos rumos da música contemporânea não perceber a importância do maestro que revolucionara a maneira de tocar tangos, tirando o caráter de canto e dança e reforçando a riqueza instrumental. Gato estava atento a tudo isso – maledicentes até diriam que, na verdade, estava interessando em plagiar.

O fato é que Gato chegava aos meados da década de 70 impregnado pela cultura latino-americana. Acrescente-se a esse caldo os músicos Domingo Cura e Adalberto Cevasco e ainda o apelo terceiro-mundista de Glauber Rocha, grande amigo de Gato. A rede de relacionamentos se amplia. Foi também um amigo de Glauber e Gato o italiano Gianni Amico, quem aproximou o saxofonista de Bertolucci.

O Último Tango em Paris, que Gato compôs em tempo recorde seguindo as orientações de Bertolucci, é uma imensa suíte em que se destaca o sax áspero e quente de Gato, envolto pelos arranjos de Oliver Nelson à frente de uma orquestra de 32 músicos. Sobra espaço ainda para dois percussionistas brasileiros, Afonso Vieira e Ivanir do Nascimento, o Mandrake, músico há muito radicado na Itália, primo de Pelé.

A trilha foi um fenômeno. Recorde de vendas para um disco instrumental e presença nas programações das rádios. Colocaria a carreira de Gato no seu mais alto patamar. Depois disso, ele nunca faria nada tão relevante.

A morte de Bernardo Bertolucci finaliza um capítulo que se manterá para sempre incompleto e obscuro na história da música e do cinema, envolvendo disputas, ciúmes, invejas, traições e acusações de plágio. O próprio cineasta nunca fez questão de explicar o que houve, tampouco Gato Barbieri, que enveredaria por novos caminhos em sua música, mantendo-se ativo até morrer, em abril de 2016, aos 83 anos.

Rejeitado para a trilha, Piazzolla, morto em 1992, repassaria as duas composições que havia feito para o filme para que fossem usadas noutro longa, Cadáveres Ilustres, de Francesco Rosi. Quando O Último Tango em Paris foi lançado, chegou a dizer que poderia ter composto uma trilha superior. Para amigos, admitia que gostava muito da gravação de Gato Barbieri.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

2 pensamentos

  1. Baita história. Um belo filme com todo um peso existencialista, mas que sempre me faz pensar com tristeza na relação abusiva de Brando e Bertolucci com Maria Schneider.

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